roberto carlos I Roberto Carlos está mudo
Roberto Carlos é como arroz com feijão, carnaval e a seleção. Não amá-lo é falta de patriotismo. Na minha geração mais ainda - fomos os primeiros que crescemos sob o reino do Rei Roberto, primeiro e último.

Meu primeiro disco, um compacto, tem Quero que Vá Tudo Pro Inferno. Ganhei da minha tia Lourdes, com quem assisti a muitos programas Jovem Guarda. Eu tinha dois anos e meio de idade.

Ano após ano amadurecemos com Roberto Carlos - os hits no rádio, quando nem FM existia; as raras aparições na TV; os filmes sempre repetidos nas sessões da tarde; os aguardados especiais de Natal.

Eu achava que os caracóis nos seus cabelos eram caracóis mesmo, uma ideia bem nojenta. E imaginava a montanha como o Olimpo, cercada por nuvens eternas.

Nunca tivemos artista tão popular quanto Roberto Carlos, dentro e fora do país. Nunca houve cantor ou compositor mais influente em nossa cultura. Não há quem se aproxime da lenda do Rei. Ele é intocável - e ao mesmo tempo é parte da família. Quando perdeu sua mãe, poucos dias atrás, o Brasil ficou triste.

Tudo isso - e não dá para ouvir Roberto Carlos cantar. Tem 35 anos que RC decidiu ser chato. Vamos escolher um marco? El Dia Que Me Quieras, 1973. Ele gravou muita besteira antes, e acertou umas boas depois.

Mas se é para definir um antes e um depois, um RC popularíssimo, mas conectado com seu tempo, e um RC que automaticamente joga para torcida custe o que custar, nada como esse bolerão. Ele tinha 32 anos.

Dali para frente, RC alisou o cabelo, adotou terninhos comportados e se rendeu ao Canecão-style. Encheu o palco com uma orquestra de fazer inveja a Frank Sinatra, mas suas canções ganharam arranjos de irritar até o Ray Conniff.

A pieguice, que sempre esteve lá, dominou sua obra - Amigo, Guerra dos Meninos, e, símbolo máximo da nova fase, Emoções, sua My Way / New York, New York.

Não gostar de Emoções equivale mais ou menos a detestar a Baía de Guanabara. E, de fato, não consigo não gostar da canção. Mas consigo reconhecer que é tudo que eu acho chato em Roberto Carlos, a quem admiro como criador.

Mas artista é assim: quer ser amado custe o que custar. E quanto mais vai ficando sem graça, mais unânime. Essa trajetória é comum em artistas que explodiram mexendo com os hormônios das adolescentes.

Elvis é o arquétipo. Mas RC com fantasia de almirante como atração de cruzeiro para a terceira idade, sério, me deprime mais que Elvis bufando baladas para tiazinhas.

Minha fantasia era que um produtor, com toque de gênio, convencesse Roberto Carlos a sair da sua zona de conforto. Como o produtor Rick Rubin fez com Johnny Cash, nos seus poucos anos antes de morrer.

Precisava de um gênio da música e da malandragem - aê Miranda - que soubesse arrancar das entranhas do nosso cansado Rei, novas explicações para suas décadas de majestade.

Roberto Carlos fala ao meu coração. Mas faz tempo que suas palavras não me dizem nada.

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