mia M.I.A.: mais livre que você

M.I.A. lançou uma nova música, Born Free, assunto da semana. O vídeo foi enterrado no YouTube - requer que você confirme que tem mais de dezoito anos. Está causando barulho. Justificativa: “muito violento’. É mesmo e mais ainda em duas cenas.

Uma mostra um menino tomando um tiro na têmpora. Já a outra mostra o que acontece quando um homem pisa em uma mina.

M.I.A., Mathangi Arulpragasam, não é qualquer uma. A inglesa de família Tamil, criada no Sri Lanka, moradora do Brooklyn, é artista plástica, cantora, compositora, tem seu próprio selo e linha de roupas.

É casada e tem um filho. Já foi indicada ao Grammy e ao Oscar. Entrou na lista da revista Time das 100 pessoas mais influentes do planeta em 2009.

A música é bem barulhenta e nada nova. Foi montada sobre sample do Suicide, duo precursor do tecnopop, 1977, por aí, e palmas para M.I.A. por lembrar deles.

O título também é velho e me fala à infância: mesmo nome do tema do filme A História de Elza, aquela leoa, Matt Monro, “as free as the wind blows”.

O argumento do clipe: um grupo de policiais americanos estilo SWAT prende todos os homens ruivos que encontram, levam a turma num ônibus para um descampado e executam os prisioneiros lá. Fim.

É uma alegoria beeem na cara do que os Estados Unidos fazem com quem é diferente, no Afeganistão, no Iraque etc. Exagerada? É e não é.

É porque o exército americano até que é comedido nas brutalidades pessoais contra seus próprios prisioneiros (perto de Auschwitz, Guantánamo é refresco. Tudo é contexto).

E não é exagerada porque os Estados Unidos, como potência, fazem isso e bem pior. De maneira “limpa”, impessoal - com todos esses mísseis de alta precisão, que parecem lindos na TV, e explodem gente de verdade mesmo assim.

Como política imperial declarada, pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial. Milhões de pessoas comuns, como eu e você, sofreram e morreram por ações diretas do governo norte-americano. No Brasil também.

Os EUA cometeram tantas atrocidades quanto no passado China, União Soviética, Alemanha, ou - provavelmente o pior de todos - Inglaterra?

Não. Mas no presente, os Estados Unidos tem mais culpa no cartório que outros países, porque mais poderoso, mais influente, e o capitalismo financeiro global, que tem sede lá, mata mais que bomba atômica.

Taí a Grécia na maior crise, cortando diretos dos trabalhadores gregos, para atender a pressão dos bancos.

M.I.A. exagera nas tintas porque Born Free é agit-prop, propaganda política. Sutileza às favas. É mais que para chocar: é para estimular quem vê o vídeo a entrar na briga com raiva, “pegar em armas”.

Esse barulho todo sobre o vídeo? Exatamente o que M.I.A. desejava. Obama parece muito com o tipo de pessoa que o governo americano costuma bombardear - mas previsivelmente segue a mesma política externa de todos os seus antecessores, com filigraninhas para lá e para cá, e amplia presença americana no Afeganistão.

Ontem o governo do Estado do Arizona autorizou a polícia a prender qualquer um que não porte documentos provando que é imigrante “legal”.

Born Free vem em boa hora. Dado fundamental: o diretor do clipe, Romain Gavras, é filho de Costa Gavras, diretor de filmes como Z, Seção Especial de Justiça, Desaparecidos, Estado de Sítio.

Todos clássicos do cinema político, o último diretamente ligado à ditadura militar brasileira, e obrigatório - assista este final de semana. Talento não é hereditário, mas é reconfortante ver que, sim, é possível transmitir valores para a próxima geração.

Born Free, vídeo e canção, foram premeditados para gerar discussão política. Não para vender produto, nem mesmo o novo álbum de M.I.A., com lançamento previsto para o mês de junho.

A discussão estética - se a música e melhor ou pior que suas canções anteriores - é fútil. M.I.A. não é entertainer, é artista.

A diferença entre entretenimento e arte: consequências.

Clique aqui e assista ao vídeo.

Veja mais:

+ Assista ao polêmico clipe da cantora M.I.A.
+
Fuck Folk, Let’s Rock
+ Todos os blogs do R7


Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A