Publicado em 17/05/2010 às 19:40

Ronnie James Dio, o deus ridículo do rock

O americano Ronald James Padavona, mama mia, gravou seu primeiro compacto em 1958. Durante dezessete anos todas suas bandas foram um fracasso. Ele não desistiu. Nem se achou.

Em 1975 finalmente a sorte piscou: Ronnie, já Ronnie James Dio, caiu nas graças de um guitarrista talentoso e sorumbático, Ritchie Blackmore, que estava cheio de sua banda, o Deep Purple. Blackmore começou outra banda, Rainbow, e chamou Dio para ser o cantor.

Mas foi só quatro anos depois, aos 38 anos, que Ronnie encontraria sua verdadeira vocação: bardo do sobrenatural. Não era vocação. Foi uma oportunidade de mercado. Que apareceu quando ele entrou para o Black Sabbath, clássica formação do metal britânico que levou do satanismo para o rock e, bem, criou o principal veio do Heavy Metal.

Dentro ou fora do Sabbath, Dio passou a protagonizar operetas tonitruantes, o que ele fez até ontem, quando morreu aos 67 anos.

É esquisitíssimo escrever isso. Tem sentido um roqueiro de 67 anos? Agora tem. Muitos morreram jovens - há quem diga que os melhores; só digo que eles não tiveram tempo de pisar na bola. Mas muitos estão por aí, em estados variados de saúde ou putrefação.

Agora, tem sentido um roqueiro de 67 anos que canta sobre o eterno combate entre o bem e o mal, em canções repletas de dragões assustadores, cavernas assombradas, magos impolutos etc.? Hm, bem, não.

Esse mundo de fantasia pseudocelta estilo Senhor dos Anéis/RPG/Harry Potter é coisa de pré-adolescente. Que muita gente carrega no coração pelo resto da vida, com carinho. Por que não? Quem sou eu para falar dos outros, se leio gibi de super-herói até hoje?

Mas Batman terá para sempre trinta e poucos anos, e seus intérpretes no cinema, idem. Em algumas décadas teremos uma nova versão holográfica, perfumada e introjetada diretamente nos nossos cerebelos de O Senhor dos Anéis, com novos - e jovens! - atores interpretando Frodo e cia (ou, quem sabe, nem existirão mais atores e teremos intérpretes 100% virtuais; depois de Avatar, não é de duvidar).

Ronnie, ao contrário, sempre parece com o Gollum. Mas envelheceu mal - foi ficando careca, encarquilhado e sempre cantando sobre satanás e seus asseclas. É muito fácil ver o quão ridículo Dio era.

Mas, valente, ele nunca temeu o ridículo. Excursionando novamente com os parceiros do Black Sabbath sob o novo nome de Heaven and Hell, parecia compreender que é possível ser um ogro patético para uns e ícone da integridade para outros.

Vi o Sabbath com Dio muitos anos atrás. Foi horrível. Minha banda era outra, anterior, o Sabbath de Changes e Paranoid, com Ozzy Osbourne antes dele ser “Ozzy Osbourne”, clichê de roqueiro velho, rico e bêbado.

Dio estrela minha coleção de discos em outra fase, quando sua cor ainda não era o negro, mas os blues. Ronnie James Dio, décadas de fracasso, feio como a necessidade, exato exemplo do que é mas ridículo no rock, sabia o que era ser mal-tratado.

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