
500 Dias Com Ela é um dos filmes mais ofensivos que já vi. É uma comédia romântica com estética e trilha sonora moderninhas. Sei, sei, quem manda um marmanjo como eu assistir a esse tipo de filme.
Tenho uma boa desculpa: o diretor, Marc Webb, foi encarregado de assumir os novos filmes do Homem-Aranha por causa da sensibilidade para tratar do mundo jovem que supostamente teria exibido neste 500 Dias Com Ela.
Trata do relacionamento de 500 dias entre um jovem que trabalha em uma firma que faz cartões-postais (embora tenha se formado em arquitetura) e uma moça que entra na empresa para ser secretária do chefe. O namoradinho, na casa dos vinte e poucos anos, esqueci o nome felizmente, é improvável.
É o que se chamava antigamente de membro da Geração X (que hoje se aproxima dos 40): sem muita ambição na vida, ganha uma graninha mezzo, se diverte com os amigos, usa camiseta de banda - enfim, vai encompridando a adolescência, mesmo já tendo passado dos 25. Acho que nem existe mais esse cara nos EUA, com a crise e tudo.
Summer, a tal secretária, é bonitinha, e os dois gostam de coisas parecidas (The Smiths, uma banda de 25 anos atrás. Puxa, esse filme é realmente anos 80). Bonitinha, mas ordinária. Logo que começa a transar com o rapaz, já avisa que não quer nada sério (até parece que existe uma pessoa assim no mundo, que dirá mulher, e americana). Dispensa quando o pobretão, sensível, mas perdido na vida profissional e pessoal, resolve insistir em um relacionamento mais formal.

Ela larga o emprego. Meses depois, os dois se reencontram por acaso em uma festa de casamento. Ela se diverte com ele, dança, enche a cara, dá a maior bola. E convida para ir a uma festa em seu apartamento. Opa: a festa é chique, a ex-secretária está cheia de amigos descolados, e ela quer exibir para o ex seu novo noivo bonitão e bem-sucedido. E junto, mostra seu anel de brilhantes.
Summer, que não acreditava em relacionamentos sérios, vai casar! E fez questão de esfregar sua felicidade no nariz do antigo namorado. No finzinho do filme, o infeliz trocou a camiseta do Joy Division por um terninho yuppie e pastinha, para procurar emprego em escritório de arquitetura.
O que eu entendi: nosso herói concluiu que as mulheres - mesmo as mais perfeitas como era, para ele, Summer - são umas vagabundas sádicas que só caem por sucesso e dinheiro, e têm prazer de esfregar na sua cara o novo macho (melhor que ele). O corno que levou fez com que ele “crescesse”, largasse as ilusões de adolescente e virasse mais um bolha corporativo.
Na cena final, na antessala da entrevista de emprego, encontra uma moreninha maravilhosa que jamais daria bola para ele quando ele se vestia de colegial indie, em vez de executivo. O nome dela? Autumn. Entendeu? Uma era Verão, esta é Outono.
Me senti tratado como um idiota. Comentei no meu trabalho o quanto odiei o filme. Várias colegas quase me bateram. Todas acharam o filme sensacional. Todas na casa dos vinte e poucos. São mulheres inteligentes. A polêmica durou uma meia hora.
Sempre repito a mesma frase para quem quiser ouvir: comunicação não é o que você diz, é o o que outro entende. O que será que elas entenderam com 500 Dias Com Ela? E o que foi que o filme disse que eu não consegui, ou não quis, ouvir?
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