zztop ZZ Top: uma banda que não está no gibi

“Comic-Bookish”. Não dá para traduzir, mas dá para explicar. É qualquer coisa que tenha características típicas de Comic Book, de gibi. Uma coisa de contornos claros, de rápida assimilação, fácil digestão. Uma caricatura - complexidade reduzida a traços simples, de identificação imediata.

Quem usa “comic-bookish” não é leitor assíduo de quadrinhos, claro, ou saberia que existem quadrinhos tão complicados quando os livros mais complicados. Mas não há como negar a natureza original dos quadrinhos - a comunicação instantânea, a repertório reduzido, o impacto fulminante.

Por isso eu gosto de chamar HQ de Gibi. Gibi parece uma coisa barata, meio vagabunda, meio de moleque. Você pode ter muito orgulho de gibi. Não precisa o quadrinho sair em couché e capa dura e estar todo arrumadinho na estante da Fnac.

O papel de terceira, a impressão vagabunda, a falta de orçamento e tempo foram fundamentais na criação dos maiores ícones dos quadrinhos. Crie um personagem realmente marcante, com uma identidade sedutora, que signifique algo, que represente valores que pegam na veia de alguém.

Pinte usando cores fortes. Produza sem parar. Repita, repita, repita. Resultado: você sabe quem é o Popeye, o Capitão América, o Tintin.

Pintar usando cores fortes às vezes significa misturar sinais. Pato Donald é valente, mas irascível e burraldo. Por isso é mais interessante que o Mickey. Batman é Drácula transformado em herói. Por isso é mais interessante que o Super-Homem.

Em cultura popular, quase tudo que bate forte e que fica é “Comic-Bookish”. Personagem - ou, porque não, vamos chamar de herói. Não só Pernalonga e a Emília. Mas Elvis magro e Elvis Gordo. Carlitos. Marilyn. Roberto Carlos. Pelé. João Gordo!

É gente de verdade que vive um personagem, de sua criação ou não. A cultura pop não é lugar para ambiguidades. Hoje, em marketing: marcas. Você sabe o que Nike, Apple, McDonald's significam. Se você não sabe exatamente o que sente sobre uma marca, é porque ela é ruim ou, pior, medíocre.

Segredo: não adianta criar um personagem igual a outro que já existe. Dá para adaptar, se apropriar, remixar, mas não dá pra fazer igualzinho. Casamenteiro é Santo Antonio, punk é Sid Vicious. Madonna fingindo de Marilyn só funciona se ela dar uma piscadinha pra gente, hei, eu sei que não sou a Marilyn, mas não é legal vestir a fantasia?

Cada personagem realmente forte é um um ícone, um talismã, um arquétipo, uma divindade. Rezamos em cada altar várias vezes por dia. Sem perceber ou percebendo. Você conhece os deuses da liberdade estradeira, do vento no cabelo, do invidualismo cowboy e boa-praça, da graxa e da gasolina, do blues de bar, da cerveja e e do bourbon, dos óculos escuros baratos?

Não tem herói em gibi ou em qualquer outra mídia que represente tão bem este arquétipo quanto o ZZ Top. Mais: não tem banda que entendeu melhor o que é “comic-bookish” do que o ZZ Top.

ZZ Top: na ativa desde 69, pela primeira vez no Brasil ontem. Se eu estava lá? Tá brincando? ZZ Top: duendes benfazejos da highway.

Quando você reza no altar de cada ícone, quer a benção dele - quer um pouco dos seus poderes. ZZ Top: quanto mais velhos, mais livres.

Ver Billy & Dusty & Frank me engana: sou badass, sou mau, sou nacional.

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