É o tira-teima da futurologia: em que exato momento o futuro vira presente? Quando o porvir vira já foi? Em que exato momento entre os burburinhos de esquisitões e a capa da revista, o que era boato se transmuta em fato?
Entre a roupa louca que ninguém usa e sua versão aguada na loja de departamentos? Entre o que ninguém faz e o que é obrigação de todos? Para a maioria das pessoas, imaginar um mundo sem livros é difícil.
Impensável. Inútil. Fantasia de maluco.
Mas The Wall Street Journal avisa: na gigantesca vitrine da livraria Barnes & Noble, em Nova York, o destaque agora é para cobertor para bebê, relógios chiques, jogos de gamão.
Mas: o presidente e maior acionista da Barnes & Noble, maior rede americana de livrarias, Leonard Riggion, diz: “o modelo das livrarias está sob pressão”.
Mas: a Barnes & Noble tem hoje menos lojas que em 1997.
Mas: as vendas da rede são hoje menores que em 2005, incluindo a receita de vendas online. Os livros eletrônicos são hoje 4% do mercado americano.
Os livros eletrônicos serão pelo menos 20% do mercado americano em 2012, segundo a consultoria especializada Idea Logical. Mercado formal. Quem quiser pegar seu livro de graça na internet - bem, tem pra todos os gostos.
O iPad e a chegada da nova geração de computadores superleves, parrudos e baratos vai turbinar a mudança. Previsão do MIT: o típico computador pessoal de 2020 será 32 vezes mais poderoso que o PC atual.
A encruzilhada é: a indústria da comunicação e do entretenimento do século 20 era baseada em propriedade intelectual e grandes audiências. As grandes audiências se fragmentam na velocidade da banda larga.
Quanto à propriedade intelectual (e o copyright, e a lei de patentes), as grandes empresas querem leis mais rigorosas, mas é muito difícil - impossível? - garantir seu cumprimento.
Em direção contrária, o cidadão do século 21 exige praticidade infinita e preços em declínio permanente, chegando ao preço zero o mais rápido possível.
Tem muita gente inteligente querendo encontrar o meio-termo. Nada de concreto à vista. As velhas mídias viverão até o enterro de seu último fã. Temos décadas de jornais, livros e álbuns pela frente.
O livro não morreu. O disco não morreu. A revista, o jornal - não morreram. Que papel terão no novo ecossistema de comunicação? Bem diferente. Menor.
O livro eletrônico vai substituir rapidinho o livro físico substituível - não colecionável, não lindo, não fofo.

Tem gênio para todo lado garantindo que o livro físico é para sempre. Umberto Eco, esses dias. É autoengano. É prever o futuro projetando o passado. Não funciona.
Fato: há maneiras mais irresistíveis de se distrair, se distração é o que desejas; e há muletas mais sólidas, se autoajuda (no amor ou na carreira ou onde for) é seu vício.
Distração e autoajuda é 99% do mercado mundial de livros.
Fato 2: a molecada não lê livros. Razão central: livro é chato. Comparado com Facebook, videogame, cinema 3D. E tomado isoladamente também. Livro é longo. Livro demora. Livro enrola.
Livro tinha que ter pelo menos 300 páginas para fazer sentido no ponto de venda, a livraria.
Se a livraria fechou, por que livro longo? Dá pra ser mais rápido? Cadê o resumo? Cadê o suquinho? Cadê a droga concentrada na veia?
No Japão e Coreia, romances em formato de SMS fazem sucesso. Poucos caracteres a cada dia. Romance no Twitter, por que não? 140 caracteres diários para contar o folhetim.
A internet não matou a palavra escrita, muito pelo contrário - o que as pessoas mais fazem na frente de um computador é ler e escrever.
Tem um novo tipo de ficção / de reportagem / de memórias sendo inventado: o texto construído por anos de participações privadas & públicas na internet.
Não é porque as pessoas leem e escrevem muito que a velha ficção, o livro-reportagem, a trilogia, o romance para moças devem sobreviver.
Vão. Vão tarde. Como a pastorela e o rondó. Como os pulps e os 25 volumes da Enciclopédia Mirador.
Ler livros jamais foi hábito de maiorias. No futuro imediato está o dia em que será reduto de excêntricos - como os que ainda insistem no vinil e na vitrola. Estarei entre eles. Preferia não.
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