A colega Paula Romano viveu uma experiência nova no sábado passado. Nada que a maioria dos brasileiros vai estranhar: ela passou mal e foi procurar auxílio no SUS.
Sorocabana, já tinha precisado de hospital público em sua cidade. Mas a coisa foi bem diferente na Santa Casa, em Santa Cecília - bairro paulistano central, pobre e problemático, vizinho da região mais chique de São Paulo, Higienópolis. Santa Cecília tem um pedaço melhor, um teco da Barra Funda e inclui os Campos Elíseos, onde o crack corre solto.
Jornalista desopila escrevendo. O texto de Paula abaixo, inédito, vai além do desabafo. Mesmo com dor, ela captou personagens e detalhes que iluminam a realidade do nosso sistema de saúde bem além da frieza dos números. Paula merece ser lida.
Na saúde brasileira os farmacêuticos são os médicos
Por Paula Romano
Qual é o pensamento óbvio quando algo no corpo está dolorido, inflamado, irritado, infeccionado ou até mesmo quebrado? “Preciso procurar um médico”. Porém, no Brasil, encontrá-lo não é tão simples assim.
De acordo com os sintomas do meu corpo e uma rápida busca no Dr. Google, me vem à resposta que eu já esperava: uma infecção urinária.
Um caso normal entre as mulheres. Conheço várias amigas que já passaram pelo problema e as recomendações delas em absoluto são: “Procure um médico, pois parece um problema tolo, mas se não tratado pode trazer sérios problemas”. Como acontece com qualquer infecção, é claro.
Não possuo plano de saúde, desde que completei 24 anos, e que me formei na faculdade, o convênio médico que vinha de meu pai, cessou. Já trabalho. Mas sou jornalista em início de carreira, o que quer dizer que com tantas contas mensais, não sobra um dinheiro significativo no fim do mês.
O salário é para viver, e só. Com isso, e por viver daquele velho lema que “comigo não acontece”, deixei ficar para depois o investimento em um plano de saúde. Tendo a infeliz ilusão de que, caso eu precise de uma emergência, poderia pedir auxílio ao SUS (Sistema Único de Saúde).
Já fui atendida pelo SUS, na Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, minha cidade natal, que mesmo longe de ser algo digno às pessoas, é um paraíso perto do que vivi no Hospital Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, localizado no popular e banalizado bairro de Santa Cecília, ao lado do cenário de novelas Higienópolis.
Hospital não é um dos lugares mais alegres do mundo: ver gente chorando, mancando, e sobrevivendo com a ajuda da sorte é comum. Mas lá, e acredito que em muitos outros hospitais públicos, o problema vai mais longe.
Cheguei por volta das 17 horas de um sábado, num dia frio de outono.
Para solicitar atendimento é necessário entrar numa fila única. Calcule uma média de 20 minutos em pé, sentido suas narinas formigarem com um forte cheiro de banheiro sujo.
Quando chega finalmente a sua vez, você se acomoda em frente a uma cabine cheia de grades geladas e encardidas, que te põe distância da pessoa que faz as anotações e, consequentemente, você precisa elevar seu tom de voz para ser ouvido.
A minha atendente era uma moça que passeia pelos 23 anos, e que sofre de um estrabismo tão alto que chega a debruçar o rosto em cima do teclado para fazer as devidas anotações. Você, então, deve imaginar que isso dificulta o processo.
Em certo momento, enquanto passava minhas informações, senti vergonha em dizer qual era a minha profissão: Jornalista. Mas logo passou, pois não é porque possuo ensino superior que posso pagar um plano de saúde, oras.
Aliás, nem o maior dos magnatas deveria ter que por a mão no bolso para isso.
Depois das devidas informações anotadas, ainda acreditando no meu ridículo otimismo, perguntei a atendente se a espera era longa: “Ah! Hoje tá demorado”, respondeu.
Prossegui no questionamento querendo uma hora exata para poder me programar. “Tá demorando por volta de 1 hora, 1 hora e meia”. Bom, tudo bem! Vamos esperar, pensei.
Quando você chega à sala de espera do hospital, seus olhos vão indo longe, seguindo o emaranhado de gente que está ali estático esperando um aconchego à sua saúde.
Mas há um momento em que seus olhos param e fixam, em nada mais nada menos que uma televisão de 21 polegadas, onde está todo risonho o dono das tardes de sábado: Luciano Huck. Cuja voz é impossível escutar.
No entanto, a diversão definitivamente não está naquele programa de sonhos inalcançáveis, mas, sim, nas pessoas sofridas, que, por mais que estejam ali há mais de três horas esperando atendimento, ainda conseguem rir umas com as outras.
É o caso de Patrícia, uma jovem mulher, que acompanhava a sua mãe na espera de uma prontificação médica. Esperta, Patrícia levou à tira colo sua mais nova aquisição: um aparelho de tear, feito de madeira e pregos, adquirido na Rua 25 de Março. Ela estava fazendo seu primeiro cachecol, cor de rosa dégradé, que iria vender para a tia, pelo preço de R$ 15.
Patrícia, que é dona de casa, não deve ter muitos holofotes à sua frente durante a vida real, mas naquele fim de tarde no hospital, ela era a mais pura sensação, e o foco principal da maioria dos olhos.
Simpática, assim que me sentei ao seu lado, ela me perguntou se eu gostava “dessas coisas”, respondi que sim, mas que não levava muito jeito. Ela continuou dizendo que também não, mas que com o seu novo instrumento “tecnológico” tudo ficava mais fácil.
Logo à frente estavam dois homens, típicos nordestinos que já passavam da meia idade, e que, apesar da falta dos dentes superiores, oferecem o mais singelo e amistoso bom humor. Aquele tipo de gente que você se sente bem em ficar ao lado, e que sempre solta uma ou outra frase engraçadinha. A história do porque eles estavam naquele hospital é o que mais me intrigou.
Aguardando desde o meio dia, os homens esperavam a mulher de um deles: uma senhora que já estava dentro do posto médico sendo atendida. Ela estava fazendo um raio-x da cabeça, por um tombo que havia tomado no metrô.
O tombo foi ocasionado porque a escada rolante do metrô inverteu de lado, sem que ela tivesse saído completamente do último degrau. Isso fez com que ela caísse escada abaixo, batendo diversos membros, incluindo a cabeça.
Mas não é só de anciãos que vive o Hospital Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, jovens eloquentes também passam por lá. Muita gente sabe que sábado é sinônimo de badalação para os jovens. Que também é sinônimo de balbúrdia e alienação – seja com drogas lícitas ou ilícitas.
Vestindo um abadá, que compõe o visual de uma espécie de carnaval fora de época, um garoto que estava acompanhando um amigo saiu aos berros e sendo carregado por seguranças na porta principal do pronto socorro. O garoto gritava sem parar as palavras: “Não tem enfermeiro nesse lugar”; “Eu sou de menor”; “Não tem ninguém para atender meu amigo nesse lugar”.
Com a situação, Patrícia tirou sarro da frase errônea “sou de menor” do garoto, já os homens nordestinos colocaram a culpa dos berros nos entorpecentes. “Isso aí é droga pesada...”, disse um deles sacudindo a cabeça em desaprovação.
Logo após o ocorrido, perguntei à Patrícia há quanto tempo ela e sua mãe estavam esperando pelo atendimento, ela respondeu que estavam ali há mais de três horas e retrucou: “já foi embora um novelo inteiro de lã”.
Todos esses acontecimentos somaram mais de duas horas em que eu já estava ali esperando. E eu não tinha nem passado pela triagem, que é onde a enfermeira diagnostica se o problema é grave ou não.
Após esse diagnóstico você precisa esperar mais algumas horas para enfim, conseguir passar pelo médico. Irritada com a situação em que estava me vendo, num súbito ataque de nervosismo saí, sem me despedir dos novos amigos, e fui caminhando pelas ruas sob a chuva fina e gélida de São Paulo.
Depois de chorar, gritar e querer socar a cabeça do prefeito na parede chapiscada, tomei consciência de que meu problema ainda não estava resolvido, e que eu precisava me medicar.
Entrei na primeira farmácia, contei meus sintomas ao farmacêutico que, assim como eu já havia imaginado, diagnosticou que se tratava de uma infecção urinária.
Receitou um antibiótico faixa vermelha, e pediu que eu tomasse o remédio até o fim da caixa. Contei a ele que estava há quase três horas esperando um atendimento médico na Santa Casa, e ele me responde: “realmente, é cruel”.
Concordo, realmente é cruel! E ainda querem proibir a venda de remédio sem prescrição médica...
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