O texto abaixo foi escrito por mim faz 21 anos. O álbum Brought To Light jamais foi republicado. Na época custava US$ 10. Comprei um usado na Amazon, dois minutos atrás, por US$ 40. Deve ter de graça na internet em algum lugar. Para já o que você está fazendo e vai atrás nesse minuto.
Você pode até odiar quadrinhos, mas tem pelo menos três boas razões para comprar Brought to Light. Primeiro, o álbum reúne dois dos criadores mais avançados dos “comics”, Alan Moore e Bill Sienkiewicz.
Segundo, o livro trata de trinta anos de operações ilegais da CIA no planeta, em especial no Terceiro Mundo, o que toca o Brasil de perto. Terceiro e final: como investimento. Brought to Light terá valorizado até o final do ano muito mais que over, dólar, ouro ou qualquer aplicação que seu economista televisivo predileto possa ter recomendado.
Mercantilismo a parte, Brought to Light é um investimento no seu cérebro por dois lados. Politicamente, porque todas as informações incluídas no livro são reais e mostram como o governo da nação mais poderosa do mundo opera secretamente. E esteticamente porque uma das histórias incluídas, Shadowplay, é uma das melhores justificativas para o uso do termo Arte com relação a gibis.
Os autores do crime são vários. Em primeiro lugar vem o Christic Institute, uma instituição americana não lucrativa dedicada a defender o interesse público e sustentada por esse mesmo público através de doações (para mais informações, escreva para The Christic Institute, 1324 North Capitol Street N.W., Washington, D.C. 20002, USA).
O instituto é responsável por algumas das mais importantes revelações sobre atividades ilegais da CIA e em especial sobre a operação Irã-Contras. Decidido a levar essas informações ao conhecimento do público, o Christic Institute optou por divulgá-las de uma maneira original: não num livro, mas num gibi.
O segundo culpado é a editora Eclipse que, através de sua editora executiva Cat Yronwode, assumiu corajosamente o projeto quando a gigante Warner medrou, com receio de retaliações do governo americano.
O livro tem duas visões diferentes dos fatos apurados pelo Christic Institute, Flashpoint: The La Penca Bombing aborda uma tentativa realizada em 1984 de matar o nicaraguense Eden Pastora, o Comandante Zero, cuja investigação realizada pelo instituto levantou pela primeira vez a conexão do Conselho de Segurança Nacional do governo Reagan com o tráfico de armas e drogas.
O roteiro foi escrito pela editora Joyce Brabner e a arte, realista, ficou a cargo de Tom Yeates, militante ambientalista e conhecido como desenhista de séries como Swamp Thing (Monstro do Pântano), Scout e Timespirits.
Flashpoint é extremamente acessível e instrutiva – mas é na outra história que a coisa esquenta. Shadowplay: The Secret Team reúne pela primeira vez dois dos maiores nomes da HQ mundial, o roteirista inglês Alan Moore (de Watchmen e A Piada Mortal) e o desenhista americano Bill Sienkiewicz (pronuncia-se zinquevítchi), de Elektra Assassina e Straytoasters.
Juntos, os dois criaram a mais concentrada lição de história de que se tem notícia. Em míseras 30 páginas, são narrados os principais momentos de envolvimento da CIA em operações ilegais desde sua criação, após a Segunda Guerra. Há escândalos diversos, mas o mais saboroso é a “conexão Laos”.
Shadowplay mostra como a CIA contrabandeava ópio do Laos para os EUA e o transformava em heroína, que era vendida nos próprios EUA. Os bilhões de dólares conseguidos eram “lavados” através de um banco australiano e utilizados para financiar programas secretos de assassinato no Laos.
Esta última operação era comandada pelo General Richard Secord, homem de confiança do ex-diretor da CIA e atual presidente americano George Bush – que hoje diz que a maior ameaça aos EUA são as drogas.
Importante: todos os menores detalhes de cada acusação feita foram comprovados por investigações realizadas por agências independentes. O livro traz uma bibliografia com 14 livros e nove documentários em vídeo de onde as informações foram retiradas.
O trabalho de Moore e Sienkiewicz, portanto, não envolveu nenhum esforço ficcional. Os fatos já estavam lá. São parte da história dos EUA e do mundo.
O trabalho dos dois se “resumiu” à missão impossível de concentrar tudo em 30 páginas ilustradas. O fio condutor é o único personagem de ficção de Shadowplay: uma enorme e fascista águia americana, que usa um termo xadrez pink, bebe paca, fuma charutos, cheira cocaína e se apresenta dizendo que representa “a companhia”.
É essa águia, a voz da CIA, que narra as próprias operações ilegais da CIA. Seu tom causa simultaneamente gargalhadas e calafrios – às vezes, na mesma página. A tradução visual do texto de Moore é, em uma palavra, inacreditável – a ilustração acima só dá um gostinho mínimo.
Com esse trabalho, Bill Sienkiewicz já é sério concorrente ao prêmio de melhor do ano em pelo menos três categorias: desenhista, colorista e letrista. Brought to Light é tudo que um gibi sonha ser: impressionante visualmente, com uma boa história (no caso verdadeira), divertido e até subversivo. Só não é muito barato – mas também, nada é perfeito.
(André Forastieri)
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