cafe espacial 6 Café Espacial e a lira dos vinte anos 
Leio Café Espacial, premiada melhor revista de quadrinhos independente em 2009, edições 5 e 6, resultado direto do esforço heróico de seu editor Sérgio Chaves, também roteirista e autor. Eu tinha visto as primeiras e nunca mais - tentei tirar férias dos quadrinhos em 2008 e 2009, tirando os vícios inescapáveis.

Sérgio não está sozinho. Conta com o apoio de Lídia Basoli e Laura Gattaz, e mais um time de colaboradores fixos, outros variados (inclusive conhecidos, como Jozz), e às vezes gringos (como o talentoso Berliac).

Esta é a graça de revistas como Café Espacial, a variedade, e no caso variedade além da HQ, porque ela contém artigos sobre cultura em geral, resenha de livro, entrevista com banda, ensaio fotográfico etc.

Também é a maldição de revistas assim, porque a qualidade varia loucamente. Vai do amador ao prontíssimo. Era assim na Heavy Metal, que explodiu meus jovens miolos 1980-85, e não seria diferente aqui. Não é problema, é da natureza da besta.

Café Espacial tem uma característica que me toca de perto: é feita principalmente por jovens de fora de São Paulo-Rio, muitos do interior. A revista é editada em Vera Cruz, Lídia mora em Marília, um dos principais colaboradores, Allan Ledo, em Pinhais, Bilu em Itápolis, outro em Curitiba, Porto Alegre e tal.

Sou de Piracicaba, de onde zarpei aos 17 anos, mas se o caipira deixa sua terra, sua terra não deixa o caipira etc., e é como me apresento, “caipira”. Claro que eu era muito mais caipira que essa turma; hoje, quem tem um computador só é jacu se quiser.
 cafe Café Espacial e a lira dos vinte anos

Café Espacial também me fala ao coração porque me transportou diretamente para outra era. Nos meus primeiros anos de faculdade, duas coisas me preocupavam constantemente: “o que vou fazer da minha vida, considerando que detesto a faculdade e não serei jornalista de jeito nenhum” e “o que vou fazer hoje à noite, considerando que não tenho dinheiro nem namorada”.

Quando encontro estudantes hoje, percebo que não era só eu e não era só naquela época, 27 anos atrás. Duas grandes diferenças: hoje os universitários começam a trabalhar bem mais cedo, mesmo que não precisem; e esticam as preocupações características desta fase lusco-fusco da vida para muito depois de se formarem.

Café Espacial - como parte importante da cultura jovem brasileira do Século 21 - é impregnada deste espírito bastante empreendedor e muito inseguro; criativo, indeciso, ensimesmado, cosmopolita.

Está também no jovem cinema, na jovem música, nas artes plásticas e na publicidade cometidas por gente na casa dos 20 (e às vezes por gente que quase encosta em mim em idade, mas vive com a cabeça em seus anos pós-adolescência, e frequentemente cercado por amigos muito mais jovens).

Os vinte e tantos são o momento em que o máximo de tesão & angústia hormonal bombando encontram pela primeira vez horizonte infinito e, quem sabe, algum para gastar, sexo de verdade, e amor de verdade, e o mundo “dos adultos” de verdade. Osso duro que cabe roer e chupar e cuspir de volta.

Os quadrinhos feitos por essa turma são frequentemente quadrinhos do autor e seus personagens falando, falando, falando. Sou o último cara que vai ralhar com os outros por darem atenção excessiva ao próprio umbigo... mas a verdade é que são raros em Café Espacial artistas que saibam contar sua história visualmente.

Gibi é tão melhor quanto menos depende do texto, quanto mais se comunica através da ilustração. É lei, é o DNA da HQ. Não que não hajam quadrinistas talentosos nas revistas. Estão lá. Vale o garimpo. E mesmo os que não me pegam, podem pegar você.

Eu me interesso hoje muito pouco pelos meus vinte e poucos anos ou pela minha adolescência. Me interesso muito por ter 44 anos e, ter um filho de seis anos me botou em linha direta com minha infância, outra vibração, outro tudo.

Mas ler essas duas Café Espacial me vez voltar por alguns minutos à pele de outro André, mais triste, mais feliz, mais bobo, mais livre - mas eu não sabia.

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