
Jean Paul Getty nasceu em 1892, foi eleito pela revista Fortune o homem mais rico dos Estados Unidos em 1957 e morreu em 1975 com uma fortuna de US$ 2 bilhões. Nasceu rico em uma família que fez seu dinheiro com petróleo. Em 1930 recebeu uma bela bolada do pai, US$ 500 mil.
Aumentou bastante a fortuna. Principalmente porque, durante 60 anos, teve o monopólio da extração de petróleo em uma faixa muito fértil, na fronteira entre Arábia Saudita e Kuwait.
Getty era amigo de sheiks, déspotas e outros milionários - preferia a nobreza britânica. Teve quatro filhos com seis esposas e costumava por as crianças para trabalhar em coisas como frentista. Sempre dizia que “só fracassados têm casamentos felizes”. Outra de sua lavra; “os humildes herdarão a Terra, mas não os direitos minerais”.
Foi vilanizado no final da vida. Eu tinha oito anos e não esqueci. Seu neto, 16 anos, foi sequestrado - o resgate pedido era US$ 17 milhões. O filho de Getty pediu dinheiro ao velho para pagar o resgate. Getty não deu. Chegou pelo correio uma caixinha, com a orelha decepada de seu neto e uma mensagem: “se o dinheiro não aparecer em dez dias, o menino vai começar a voltar para casa aos pedaços”.
Getty entrou na negociação e baixou o valor para US$ 2 milhões. O garoto foi devolvido. Os sequestradores nunca foram presos. Filho e neto tinham o nome do magnata. JPG III não aguentou o tranco. Em 1981, um coquetel letal de drogas e álcool o deixou paralisado, cego e mudo.

Mas ninguém associa seu nome a nada disso. Porque em 1953, ele iniciou o trabalho de uma vida, que o faria imortal. O J. Paul Getty Trust é a instituição de arte mais rica do mundo, com recursos na casa dos US$ 4 bilhões.
Se dedica a pesquisa e conservação de obras de arte. Publica livros. Opera o Getty Centre, o museu mais espantoso de Los Angeles. A base da coleção do museu foi a própria coleção de Getty - de sua herança, US$ 661 milhões foram deixados para o J. Paul Getty Trust.
O Getty Centre - na verdade, hoje são dois museus, um em Los Angeles outro menor, o Getty Villa, em Pacific Palisades - recebe 1,3 milhão de visitantes por ano. Metade devia estar lá neste sábado, quando passei mais de cinco horas no local. Arquitetura impressionante, cinco pavilhões encarapitados sobre a melhor vista de Los Angeles. Sol brilhando e o povo chegando - ônibus de excursão, famílias com crianças, gente de toda cara e tipo.
Atrações não faltam. Uma coleção de fotografia excelente (fechada este final de semana; não pude ver os originais do meu ídolo Man Ray). Iluminuras. Esculturas. Arte decorativa. Uma coleção espantosa de pinturas, da pré-Renascença ao século 19. Bailarinas de Degas. Irises de Van Gogh. Atividades para a família. Lojinhas e lojonas, lanchonetes e um restaurante decente.
Exposições especiais: uma retrospectiva fascinante de Geróme, que eu não conhecia, e outra dos planos de Leonardo da Vinci para suas esculturas. A cereja do bolo, que me fez lembrar dos milionários brasileiros e sua aversão à filantropia: a entrada é grátis.
Folheei na loja do museu a autobiobrafia de Getty, The Way I See It. Intragável e intrigante como o autor. A vida de Getty o fez encarnação escarrada do que o capitalismo tem de pior. Na morte, foi generoso. Compartilhou com todos nós sua paixão - talvez seu único amor verdadeiro, a arte.
Clique aqui para ver a fachada do Getty Centre.
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