crossedblog andre Garth Ennis: não recomendado para menores de 18 anos

Não consigo terminar Crossed. É o gibi mais perturbador que enfrento em muito tempo. Só letras e desenhos em papel, sei, uma distopia repleta de zumbis como tantas outras, certo, e nem são os desenhos mais horríveis que você já viu. Mas o autor é Garth Ennis - e quando se trata de cenas de virar o estômago, de judiar de seus personagens, e de humor negro como a alma do capeta, não tem ninguém igual.

Ennis é muito conhecido dos leitores brasileiros de quadrinhos. Sua carreira tem duas décadas, boa parte labutando nos currais das duas grandes editoras americanas, Marvel e DC. Prova de persistência, Ennis passou todo este tempo praticamente sem ter que lidar com super-heróis, que detesta.

Ficou conhecido por Hellblazer, Hitman, Nick Fury, e principalmente Justiceiro e Preacher - este, ainda sua obra maior. Suas especialidades são o terror mais terrível, o crime mais pérfido, a violência mais bruta, e o ridículo de viver - frequentemente juntos e embolados. Cheira como a vida, só que pior - tripas e sangue e lágrimas.

Não à toa, sua grande paixão são as histórias de guerra. Ninguém ativo nos quadrinhos combina tão bem horror, crime e o humor das galés. Batalhas recomendadas: War Story, War is Hell, Battlefields. Heroísmo, de vez em quando; patriotismo, jamais; desgraça, sempre. Sei muitas coisas sobre Ennis. Menino prodígio, com 25 anos fez a versão definitiva de John Constantine.

Por pouco compartilhamos a geração - ele é cinco anos mais novo. Tive chance de dar um parabéns meio envergonhado para ele em 96, San Diego Comic-Con, não entendia nada de seu sotaque irlandês, só disse “congratulations, keep doing a great job”. É encanado com armamentos, Segunda Guerra, quando éramos crianças metade dos seriados e pocket books lidavam com Segunda Guerra - Combate em todo lugar, Brigitte Montfort aqui, alguém lembra?

Sigo Ennis fielmente, como poucos outros. Com o tempo, minha leitura de quadrinhos foi ficando mais arriscada de um lado, mais previsível do outro. Estou cada vez mais aberto ao que não conheço, e cada vez mais ligado em uns poucos autores, entre eles Ennis. Me pego completista, querendo ler cada historinha obscura do começo da carreira, cada esquisitice feita para caridade, cada lado B.

Minha lista de compras está aqui Muito do que ele fez não está disponível em português, muito nunca esteve. Sua vingança contra os super-heróis está nas livrarias nacionais. The Boys merece visita cautelosa. Se você é dos que entende que a alma dos quadrinhos são os super-heróis, evite. Vai encontrar ícones queridos (e mal disfarçados) sendo sacaneados, humilhados, e às vezes currados.

Se, como eu, você não tem problema em rir de seus heróis, vai com tudo. Na loja online em que procurei para ver se existia edição brasileira - Comix, ainda a melhor loja de quadrinhos deste país, depois de todos esses anos - encontrei o seguinte aviso sobre The Boys: “NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS!

Este livro contém: linguagem obscena, erótica e depreciativa; gestos obscenos; insinuação de sexo e masturbação; consumo de drogas lícitas ou ilícitas; nudez (mas sem nu frontal); violência com requintes de crueldade apresentada de forma divertida; vítimas em estado de agonia; tortura, estupro, mutilação, abuso sexual; valorização da beleza física como imprescindível para uma vida feliz; e muitas outras coisas do gênero. Portanto, se você se sente chocado com algum desses conteúdos, nem pense em abrir esta obra (mas saiba que isso seria muita frouxidão da sua parte).”

Se depois dessa você não tem vontade de sair correndo para ler o cara, jogo a toalha. Garth é one of the boys - dos meus.

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