
Johan Cruyff
Eu tinha pouco menos de cinco anos quando o Brasil ganhou a Copa de 1970. Lembro do agito e da final. Em casa ninguém vibrava com futebol e eu não vibrava junto. 1974 foi diferente. Eu era maior. Lia bem, lia sobre a Copa. Tinha amigos loucos por futebol. Jogava bola todo dia, na rua ou em qualquer lugar, ruim de dar dó, mas insistia. Não insistir era não ser criança e não ser brasileiro.
Futebol era, é, religião e obrigação. Eu não torcia para ninguém, mas dizia que torcia para o Palmeiras, porque era o time do coração do meu tio do coração. E torcer pelo Brasil era ser patriota. Era época do Brasil grande, do milagre brasileiro, do Brasil, ame-o ou deixe-o. Duro resistir. Mesmo não sendo especialmente fã do regime militar, minha mãe se dispôs a levar eu e meu amigo Marcos para abanar para o Galaxy do presidente Médici, quando ele visitou Piracicaba.
Já éramos mais de noventa milhões em ação, mas não devíamos ser muito mais de cem. Ganhamos em 1970. Estávamos mobilizados para repetir o feito em 74, mesmo sem Pelé. Pra frente, Brasil.
E foi bem nessa Copa que meu desinteresse por futebol foi selado. O grupo do Brasil tinha Zaire, Escócia e Iugoslávia, e era considerado canja de galinha. Que nada. O Brasil atravessou a primeira fase a duras penas. O horário me irritava. Os jogos eram no meio da tarde, hora dos meus seriados favoritos, e lembro que Brasil e Escócia ocupou o horário do meu sagrado Ultraman, quatro e meia da tarde, TV Tupi. Bem nessa hora? Não podia ser depois? Minha mãe meio consolou, meio ralhou, esses bandidos tem todo dia, Copa é uma vez a cada quatro anos. O jogo foi uma porcaria, empate. Foi para isso que fiquei sem meu herói japonês favorito?
Os jogos seguintes foram parecidos, e acredite se quiser, Brasil x Argentina não era essa rixa toda naquela época não. Eram duas ditaduras militares vizinhas, que se ajudavam, e estimular rivalidade era desestimulado pelos governos dos dois lados. Ganhamos por pouco. A esta altura nossa seleção já levava pau da brasileirada toda, que patriotada tem limite, e lembro das piadinhas maldosas dos piracicabanos sobre os cabelões dos jogadores - umas bichas com certeza! - e principalmente sobre o black power de Jairzinho e a tintura nas melenas de Paulo César Caju.

Seleção Brasileira de 1974
A Copa de 74 era Alemanha e Holanda, Beckenbauer e Cruyff, mas a surpresa era Holanda, que jogava como ninguém tinha visto antes. Era o Carrossel Holandês, a Laranja Mecânica - um sistema planejado detalhadamente, para que qualquer jogador ocupasse a qualquer momento a posição e papel de outro, se necessário. Funcionou e quase que a Holanda leva a Copa - perdeu para a Alemanha na final. Antes, meteu 2 a 0 no Brasil, que acabou sendo mandado pra casa pela Polônia. Polônia!
Vergonha nacional, e a seleção canarinho (que usou muito azul em 74, se a memória serve) voltou manchada como traidora. 2010 e aqui estamos, às vésperas de outro Brasil e Holanda, quem sabe um Brasil e Argentina ou Alemanha. Assisto com pouca emoção mas assisto.
Tenho um menino de seis anos que começa a levar a sério futebol, tão a sério quanto possível para o filho de um perna-de-pau como eu. E se meu pai nunca me estimulou a gostar de futebol, com o neto até que vem se redimindo: deu uma Vuvuzela e uma Jabulani brazuca para ele.
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