Um bom livro te leva para outro lugar. Muitas vezes, para um lugar que você nunca teve interesse de visitar. Chega de Saudade trata do nascimento, sucesso e refluxo da bossa nova, que me diz absolutamente nada.
Bossa nova para brasileiros da minha geração é música de velho, dos nossos pais ou avós, e na melhor das hipóteses parte da paisagem, como o arroz na mesa do almoço, como as chuvas de verão.
Grandes talentos se expressaram usando o idioma da bossa nova, sei, e me rendo ao fato de que é a música que o Brasil deu ao mundo, a única. Dá nos nervos mesmo assim.
É quase sempre jazz mal digerido por jovens cariocas brancos de classe média, cinquenta e tantos anos atrás. É a bobeira das letras, é o jeito maneiroso de cantar. Aquela postura inofensiva, de papel de parede.
Mas Ruy te captura. Já me peguei lendo artigos e livros dele sobre assuntos que em nada me interessam.
Ou temas que me interessam, mas já conheço de cor e salteado, e sei que Ruy não vai me dizer nada de novo que importe, mas mesmo assim vou até o fim.
Chega de Saudade é um baita livro reportagem que você lê como um artigo delicioso que você não quer largar, em uma revista favorita.
Cada página tem sua graça, seu momento, sua frase memorável. Cada página tem o perfume de um Brasil que não volta mais, que não me seduz e que não conheci.
Ruy também não. Mas é um Brasil que Ruy ama, e seu amor nos transporta.
Veja mais:
+ O Verde Violentou o Muro, Ignácio de Loyola Brandão
+ Leia os principais destaques do dia
+ Todos os blogs do R7



