Publicado em 16/08/2010 às 15:12

Por que Tomás não lê mais o Cebolinha

Emerson Abreu Por que Tomás não lê mais o Cebolinha

Emerson Abreu, há 14 anos criador de histórias assinadas por Maurício de Sousa, com uma amiga

A carreira de Maurício de Sousa fez 50 anos em 2009, e as comemorações continuam, agora com uma grande mostra sobre sua obra. Que é um tesouro nacional, mas não é só sua. É sua do ponto de vista da propriedade. Não é exclusivamente sua do ponto de vista da autoria. São dezenas, centenas de profissionais envolvidos na criação destas histórias em todos estes anos.

Porque, claro, não é Maurício que escreve ou desenha as histórias assinadas por Maurício de Sousa em todos estes gibis que estão nas bancas. Mas você jamais saberia. As histórias não têm crédito para o roteirista, ilustradores, colorista etc. No final das revistas tem um crédito geral para Maurício de Sousa Produções, um amontoado de nomes que nada significam. Esta prática é antiquada.

Hoje, qualquer gibi de personagem licenciado no mundo inteiro tem seus créditos dados com clareza. Pegue um quadrinho do Homem Aranha, do Ben 10 ou um mangá do Pokémon e você saberá quem são os criadores daquela história específica, ainda que estes três personagens sejam propriedade de grandes corporações.

Recentemente, tive o prazer de acompanhar meu filho Tomás lendo uma ótima história do Cebolinha. Foi a primeira história em quadrinhos que ele leu do começo ao final. Perguntei aqui neste blog quem eram os autores. O amigo Sidney Gusman esclareceu: a história foi publicada originalmente em 2004. O roteirista é Emerson Abreu, os desenhistas, diversos artistas do estúdio de Maurício.

Parabéns para o Emerson, que não conheço, e todos os envolvidos. Agora, quero ler muitas outras histórias suas, Emerson. Mas não vou ler. Porque não tenho como saber o que você escreveu, nas revistas que estão nas bancas.

Comprei outras revistas da Turma da Mônica nas bancas para conferir se é sempre assim. Fiquei chocado de perceber que nenhuma tem crédito aos criadores. A esta altura do campeonato, é injustificável. Fui ao blog de Emerson Abreu. Descobri que ele tem 36 anos e trabalha para Maurício de Sousa Produções há 14 anos.

Moleque, aprendi a reconhecer bem cedo meus favoritos, nos meus quadrinhos favoritos. Se a história é de Denny O'Neil tem grandes chances de ser boa, seja do Batman ou do Super Homem. Se o desenhista é John Buscema vou comprar este gibi, seja do Conan ou do Thor.

Um belo dia percebi que o estilo de alguns dos meus desenhos animados favoritos era parecido com o de alguns gibis que eu tinha. Procurei nos créditos dos Herculóides e Space Ghost e não encontrei o nome de Alex Toth, mas mesmo assim tive certeza de que ele estava envolvido na criação deles (estava).

Hoje consigo perceber traços autorais em literatura, artes plásticas, música ou cinema. Consigo comparar criadores e criações diferentes, de eras e origens diferentes. Onde começou? Lendo gibi.

Da década de 80 para cá, a indústria americana de quadrinhos, que sempre tratou muito mal seus criadores, passou a dar, além do crédito, royalties e bônus para os artistas, mesmo quando trabalhando em personagens que são propriedades das empresas.

Neil Gaiman não é dono de Sandman (a Time Warner é), mas ganha uns pontinhos percentuais de cada livro vendido do personagem. É justo, mas entendo que nem sempre seja apropriado, da mesma maneira que um jornal não paga royalties para todos os jornalistas que lá trabalham. Agora, dar os créditos aos autores é menos que o mínimo. Até isso acontecer nas revistas da Maurício de Sousa Produções, prefiro que Tomás leia outras coisas.

A segunda história em quadrinhos que ele leu foi o pai dele que publicou dez anos atrás: Dragon Ball, nº 1. Ajudei o menino numas partes mais difíceis. E fiz questão de mostrar os créditos para ele. Está vendo meu nome aqui, filho? Papai ajudou a trazer os mangás para o Brasil. Está vendo este outro nome aqui? É o nome de quem inventou o Goku, escreveu e desenhou esta história, e depois é que fizeram os desenhos da TV, os games e tudo mais.

É o criador de Dragon Ball: Akira Toriyama. Maurício de Sousa foi muito generoso com o Brasil, compartilhando com a gente seu talento de cartunista e empreendedor, e foi justa e regiamente recompensado por isso.

É hora de rever sua atitude com relação a tantos, e tão talentosos criadores, que hoje dão vida nova aos personagens que ele criou.

+ Você toparia posar para a Playboy?
+ Veja a cobertura dos Jogos da Juventude - Cingapura 2010
+ Leia os principais destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Ir para o Topo