Dia deficiente Deficiente: você ainda vai ser 

O Ministério do Desenvolvimento Social fez uma pesquisa com 190 mil famílias que recebem o Benefício de Prestação Continuada, porque têm em casa criança ou jovem com deficiência intelectual ou física.

Ele só é pago a famílias com renda per capita inferior a um quarto do salário mínimo, ou R$ 127,50. Descobriram que quase um terço dos meninos, 32%, não frequenta escola.

Razões alegadas: 53% dos pais consideram que o filho não tem condições de aprender, 10% temem que ele seja discriminado, 9% temem violência, 13% não têm quem leve ou acompanhe o filho até a escola.

Muita gente não sabe que é direito de todos os deficientes a matrícula em escola regular. É a posição do Ministério da Educação e de muitas entidades representativas.

Claro que o governo defende a inclusão, mas não viabiliza o cumprimento da regra, como de costume.

Parece esquisito em princípio, você botar um moleque cego, surdo ou com paralisia cerebral na classe com crianças “normais”. E é mesmo.

Como o professor vai dar a atenção necessária para quem tem necessidades especiais, sem descuidar das necessidades dos outros?

E se tiver surdo na sala, precisa sempre ter um intérprete que conheça LIBRAS, a linguagem brasileira de sinais? E se for cego, lê livro em braille?

Meu tio Joaquim é paraplégico, acidente de trabalho, desde 1983. Era engenheiro, virou professor, vocação que sempre teve - me ensinou na adolescência a jogar truco e ler o Pasquim, entre outras coisas úteis.

Se acha um privilegiado, porque convive todo dia com gente que sofre ainda mais. Já ouvi dele histórias apavorantes sobre deficientes extremamente carentes.

Cara que ficou paraplégico e nunca mais saiu de casa, porque mora na favela, e não tem como descer os degraus, e daí para pior.

Se você pensa que é dureza ser pobre, ou deficiente, não faz ideia do que é ser deficiente pobre.

Joaquim é militante dos direitos dos deficientes, sem perder o humor.

Tem uma boa do meu tio que foi pegar uma classe da Unicamp e explicar os problemas da inclusão botando venda em um, silicone na orelha do outro, amarrando braço ou perna, colocando vários em cadeira de roda - depois ordenou, “agora todo mundo para a lanchonete tomar um café”.

Outra inesquecível foi apoiar a organização de um cursinho para vestibulandos carentes - e despachar um deficiente visual para ter aula lá.

No final, todo mundo vira deficiente. Vai apagando velinha, vai ficando surdinho, cegueta, manquitola, e vai que vai. Para escapar, só morrendo jovem.

E bem antes do final, a gente já começa a conviver com as deficiências conforme nossos avós e pais vão envelhecendo.

Desde o ano passado, meu filho compartilha a classe com Diandra, uma garotinha que tem Síndrome de Down. No começo estranhou um pouco.

Depois aprendeu o que é Down e veio me explicar, “não tem por que eu ficar bravo, é que ela tem a mesma idade que eu, mas o cérebro dela é de criança menor”. Diferente não precisa ser pior.

Comentei com Joaquim, ele mandou: “pois é. A grande coisa das salas de aula compartilhadas nem é só o que os deficientes aprendem... mas o que o resto dos alunos aprende, convivendo com o deficiente.”

O Twitter do Joaquim.

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E aqui, o tio fazendo sucesso com a molecada, deficiente ou não.

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