Tudo tem explicação. Melhor: tudo tem explicações. Se você não encontrou, continue procurando.
Se você encontrou uma, continue procurando mesmo assim. Deve haver outras. No mínimo mais uma. Talvez seja a mais importante de todas.
Estão se solidificando as explicações para a inevitável vitória de Dilma Rousseff. Mas um estudo da economista Luiza Rodrigues, do Santander, joga uma luz um pouco diferente sobre o tema.
É a base de uma reportagem publicada no jornal Valor Econômico e assinada por João Villaverde. Trata da criação de empregos em 2008 e 2009.
De um ano para o outro, todos os setores da economia registraram saldos menores na criação de empregos. Com uma exceção: o emprego público, nos níveis federal, estadual e municipal.
De um ano para outro, o setor público passou de quarto maior gerador de vagas formais para segundo - de 112 mil vagas criadas em 2008 para 454 mil registradas em 2009.
Vamos comparar:
Empregos criados em 2008
Agropecuária - 100 mil
Indústria - 555 mil
Comércio - 483 mil
Serviços - 646 mil
Administração Pública - 112 mil
Total: 1.896 mil
Empregos criados em 2009
Agropecuária - 8 mil
Indústria - 282 mil
Comércio - 369 mil
Serviços - 654 mil
Administração Pública - 454 mil
Total: 1.767 mil
Em 2009, quando a crise bateu forte pelo mundo afora, o setor público aumentou drasticamente a contratação de funcionários públicos. Com isso, o Brasil manteve praticamente o mesmo nível de novos empregos que em 2008.
O estudo, e a reportagem, contêm uma série de outros dados interessantes sobre massa salarial, crédito, diferenças regionais etc. Não conecta com questões políticas - não é o objetivo da matéria.
Estalo: certamente há alguma relação entre a quantidade de funcionários públicos (que cresceu muito nos últimos anos e radicalmente em 2009) e a qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado.
Melhor qualidade dos serviços federal, estadual e municipal tem reflexo direto na percepção do eleitor, principalmente o mais pobre, que mais precisa do Estado.
Dilma vai ganhar não só que porque os mais pobres podem comprar mais do que há oito anos ou pela suposta genialidade política de Lula (que, quatro anos atrás, com o mensalão bombando, ninguém chamava de gênio).
Dilma vai ganhar porque o Estado está cuidando melhor de quem mais precisa dele. Você leu esta explicação em algum lugar? Eu ainda não.
O Estado gasta muito? Gasta mal? Tem gente que defende o estado mínimo, tem gente que defende o estado pai. Eu não sei o tamanho ideal do Estado, mas tenho uma proposta modesta para Dilma.
Que tal o governo federal, BNDES etc. interromper empréstimos a grandes empresas por um tempinho? Pega esta dinheirama, contrata uns dois milhões de novos funcionários públicos, e vamos encanar esgoto.
Até o Brasil passar dos atuais 45% de domicílios com rede de esgoto para 100%. São dados do IBGE, divulgados semana passada. É mais da metade da população convivendo com merda pra todo lado, porcaria a céu aberto.
No século 21. Vamos combinar que é prioridade?
Do ano 2000 para 2008, o número de domicílios com acesso a rede de esgotos passou de 33,5% para 47,5%. Estamos menos pior? Sim. Mas nesta velocidade de lesma lerda, vamos precisar de mais cinco décadas para resolver o problema.
Quem mais reclama do tamanho do Estado é quem mais se beneficia de recursos públicos - os grandes grupos econômicos (e desconfie, por favor, de seus porta-vozes nas universidades e imprensa).
Quem menos se beneficia é quem mais precisa - e foi só melhorar um pouquinho o tratamento dos brasileiros mais necessitados, que veio esta avalanche de votos sem precedentes. Tudo tem explicações.
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