O projeto de quadrinhos dos meus sonhos nunca saiu, nunca sairá do papel. Ele nasceu quando eu fiz sete anos de idade e ganhei a coleção encadernada do Monteiro Lobato.
Os livros nunca saíram da minha cabeça. As ilustrações de André LeBlanc também não.
Só vislumbrei o que seria este projeto muitos anos depois, 1996, em Oaxaca, México. Visitava o museu das ruínas de Monte Albán, e encontrei um álbum de quadrinhos com lendas zapotecas.
Capa dura, colorido, desenhos bonitos. No expediente, a explicação: apoio do Ministério da Educação. Pensei: isso nunca vai existir no Brasil.
Quatro anos depois, começamos a publicar quadrinhos na Conrad, e o primeiro lançamento foi sugestão minha: Gen - Pés Descalços, a história de um menino depois do bombardeiro de Hiroshima.
Outra de que me orgulho muito foi Buda, de Osamu Tezuka, a melhor coisa que publicamos. Mas a elogiada linha editorial da Conrad Livros, confesso, não era minha, embora eu desse meus pitacos especialmente quando se tratava de quadrinhos.
Anos depois, na Pixel, eu tinha mais input, embora minha autonomia como diretor editorial fosse bastante limitada - coisas de sócio pobre em projeto de empresa rica. Existem outras razões para eu não ter tocado no meu projeto dos sonhos quando estava na Pixel. Não importam agora.
Alguns anos atrás, com amigos, consegui colocar exatamente no papel o que eu vinha sonhando. O codinome do projeto era Código.
Era uma combinação de:
a) quadrinhos e livros ilustrados, sempre voltados para o conhecimento, a informação e a formação;
b) que se sustentassem como leituras sedutoras e objetos de arte, independentemente de sua força “educacional” (termo detestável);
c) que contassem com uma estratégia digital extensiva de suporte e atualização dos conteúdos de cada livro, com foco na interatividade entre os participantes de cada comunidade - os stakeholders, para falar bonito;
d) tanto livros criados no Brasil, como direitos comprados do exterior.
Sim, a intenção era criar uma linha que fosse útil para escolas e governos. Não, a ideia não era bater a carteira dos ministérios e encher o bolso de dinheiro público.
O grande objetivo deste projeto, em sua versão final, era unir o melhor do impresso e o melhor do digital, as forças dos meios, para educar gente de qualquer idade unindo palavras e imagens.
Ficou bonito. Parecia viável. Ia exigir um investimento razoável de tempo e algum de dinheiro. E o gosto amargo que ficou ao final de minhas duas experiências como editor deixou um travo na língua. O tempo tinha passado.
Hoje vejo muitos quadrinhos e livros ilustrados de formação em circulação. Os governos e escolas compram cada vez mais. Tem quase uma indústria da HQ produzida especialmente para isso. Ótimo.
Pena que a maioria do que vejo é bem fraca, trabalhos de encomenda, sem ambição estética ou formativa. Uns e outros sobressaem. O grosso são de episódios da nossa história, ou adaptações literárias, coisas que só entraram nos meus planos de raspão.
Nada do que vejo tem a menor articulação extra-papel, e em tempos de Facebook e iPad, isso me parece míope. Se alguém sabe de algo diferente, eu adoraria saber.
Ficou disso tudo, pelo menos, uma estante de livros e revistas que reuni ao longo de uma década e meia. Abri agora um quase intocado, de Larry Gonick, divertido, esperto.
Finalmente vou terminar King, do Ho Che Anderson. Muitos nunca li ou nunca reli, nove entre dez jamais foram publicados no Brasil. Bem, pelo menos agora posso educar a mim mesmo.

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