neymar luan montagem Nem Luan gay, nem Neymar vilão

Não acompanho futebol, como não acompanho música sertaneja. Mas ignorar Neymar é como ignorar Luan Santana: impossível e inútil. São personagens, ícones, e decifrá-los é compreender minha cultura, meu país.

Luan é personagem cada vez mais interessante. Por exemplo, tem fama de gay. Pode ser inveja dos rapazes, que não suportam ver suas namoradas gritando por Luan. Pode ser real. Pode ser um caso de gay que não aceitou conscientemente que é gay (talvez jamais aceitará). É comum.

Seja como for, astros jovens e rebolantes sempre acabam com fama de bicha, sendo hetero ou não. Luan reage bravo, como machão: que gay o quê. Garante que transa com um monte de mulher, que pega as fãs no intervalo do show etc. Escândalo dos bem-pensantes: Luan é preconceituoso!

Não entendem que Luan Santana é Brasil do interior: ou você é macho para caramba ou é bicha louca. Estudei em escola pública em Piracicaba nos anos 70 - entendo dessas paradas.

O mundo da música permite essas ambiguidades, essas texturas, essas questiúnculas, e é mais atrativo por isso. Já o futebol, como todos os esportes e talvez mais que os outros, é pobre em significados.

Só tem dois personagens: o herói e o vilão. Quando você assiste ao Mesa Redonda, está de volta aos quadrinhos dos anos 30, com mocinhos impolutos e bastardos traidores.

No futebol existe o herói; que se preparou; que se sacrifica; que é um exemplo de conduta; que lutou para chegar lá; que merece tudo de bom, todos os aplausos, e amor, e polpudos patrocínios.

E existe o ídolo caído; ele que não simboliza mais os “valores” atléticos; ele que nos abandonou; ele que não merece mais o nosso carinho; ele que se entregou a pelo menos um de cinco pecados capitais (Gula, Luxúria, Vaidade, Ira, Preguiça e Orgulho; Avareza e Melancolia não combinam com jogador de futebol).

Ronaldo era o herói, virou o vilão, voltou a ser herói - em nível inferior, provincial, mas herói, e simpático por suas imperfeições e banhas, porque “mostrou humildade”.

Neymar era o mocinho, agora é o bandido. Seu talento, idade e valor financeiro garantem que voltará logo a ser herói.

Futebol é preto e branco, e previsível. Em um esporte em que você é um time ou outro; e em que um a zero decide o jogo, matizes de cinza são frescura. Prefiro música.

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