cachalote blog Encalhado no <i>Cachalote</i>

Não consigo terminar de ler Cachalote. Empaquei. Não é comum. Leio rápido e gibi mais rápido ainda. Não Cachalote. Desembolsei R$ 45,00 à toa?

Cachalote foi saudado por todo lado muito antes de ser lançado. É o primeiro livro da Companhia das Letras unindo escritores "de verdade" (ou seja, de romances) com ilustradores de ponta, um projeto coordenado pelo também escritor Joca Reiners Terron.

É um  investimento enorme pagar duas pessoas para produzir um livrão de 280 páginas como este. Ainda mais não sendo livro educativo, com chance de ser vendido para governos e escolas; ainda mais sendo autoral; ainda mais, indicado para maiores (nada muito radical; um pinto pra cá, uma cena mais grotesca pra lá).

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Foi a primeira vez que algo parecido aconteceu no Brasil, um marco na história dos nossos quadrinhos. E não são duas pessoas quaisquer. São Daniel Galera, um dos romancistas mais elogiados da nova geração, e Rafael Coutinho, idem  no mundo da ilustração. O bochicho em volta de Cachalote era forte antes de vermos uma única página. Tratamento VIP: debate na Flip, em Parati; preview na revista Piauí; entrevista na Ilustrada etc.
    
Daniel Galera valoriza e conhece quadrinhos. Traduziu vários, inclusive para minha velha editora, a Conrad. Era da turma do site Cardosonline, contemporâneo de Daniel Pellizari e de uma amiga, Clarah Averbuck. É figura chave do novo cenário literário brasileiro. Escreveu quatro livros. Não li nenhum, então não sei dizer no que se assemelham ou divergem de Cachalote (nada contra Galera; leio pouco romance).

Rafael Coutinho é artista polivalente, ilustrador, pintor, diretor de curtas e o escambau. Produziu pouquíssimo de quadrinhos. Como chegou tão rápido à sofisticação que exibe em Cachalote? Artista plástico que sabe contar história é ave rara. Com tantas credenciais, Cachalote não me seduz (de qualquer forma, leia outra opinião informada sobre Cachalote aqui

Não porque é um gibi construído em tramas paralelas que nunca se encontram; nem porque ambicioso, ou "literário", ou frio. As estantes aqui ao lado estão cheias de espécimes similares. Simplesmente não consigo me interessar pelo destino de nenhum dos personagens de Cachalote. Problema meu, ou foi ambição demais para dois talentos tão jovens e, na prática, inexperientes na criação de graphic novels?

Faltou um editor "véio de guerra", com mão de ferro? O que outros viram que eu não?

Estou sendo chato. Exigindo demais. Sim, porque não se trata de uma dupla de zé-manebas. E estou de fato qual cachalote, encalhado no meio do livro. Melhor parar e tentar de novo mais para frente, para não ficar com implicância. Muitas vezes me surpreendi nestas novas tentativas - por que eu não gostei desse livro da primeira vez?

Cachalote um dia acabo, e vai ver o final alinhava o conjunto. Por enquanto, a qualidade das ilustrações e dos diálogos me incomoda. Porque forçam a pergunta difícil - o que diferencia o bom do ótimo?

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