Como é que você não leu nenhum livro do Daniel Galera? Como você escreve sobre um gibi que ele escreveu, sem conhecer nada da obra dele?
Boas perguntas sobre minha autoridade para escrever sobre Cachalote (leia aqui), álbum de qualidades diversas que Galera fez com Rafael Coutinho e que não consigo terminar.
Bem, opinião e rabo, todo mundo tem e eu também. Escrevo o tempo todo coisas sobre as quais não entendo patavina. Aliás, gosto muito de escrever sobre assuntos que desconheço - é uma maneira de eu me educar.
Em público, o que frequentemente me fez e faz passar vergonha. Escrevo sobre o que me dá na telha, liberdade total, sem interferências externas nem limitação de espaço, ou temática. Maravilhas da internet. Lê quem quer, e agradeço.
Além disso, não me sinto na obrigação de estar por dentro de tudo que acontece em literatura, música, artes plásticas etc. Não me sinto “por fora” estando por fora. Tenho até um prazer perverso em estar na contramão. Resquícios da adolescência, chame do que quiser.
Aura de “obrigatório” funciona ao contrário para mim. Por exemplo: o selo Companhia das Letras em uma capa de livro, mais que qualquer outro nacional, me força questionamento automático.
Estou comprando este livro porque quero, ou por que foi publicado por uma editora que supostamente só publica do bom e do melhor?
Evitei muitos livros de leitura inevitável. Circundo “os dois maiores romancistas do Brasil” há 30 anos. Guimarães Rosa - não consigo atravessar. É poderoso, mas alienígena demais para mim, quase pernóstico.
Machado de Assis - li pouco, coisa fina, mas meio que me sentindo obrigado a achar o máximo, o que tirou muito do prazer. Agora talvez seja tarde. Perdi a paciência para romances.
Minha ficção vem quase toda via cinema ou quadrinhos. Quem sabe depois da aposentadoria; se bem que não me vejo velhinho na praia lendo sobre jagunços mineiros. Mais provável que eu gaste minha vista cansada olhando as bundas das moças.
Então não, não li Galera, Bernardo Carvalho, Joca Terron, Marcelino Freire, Milton Hatoum e mais um monte de livros que os amigos recomendam. Leio pouca ficção, uns dez romances por ano, escolhas idiossincráticas, de impulso, preguiçosas. Como sigo religiosamente alguns autores - e Elmore Leonard, por exemplo, publica um novo livro por ano - meu espaço para experimentação é muito limitado.
E, francamente, nunca fui crítico profissional, nunca quis ser, e me mata de tédio essa necessidade neurótica de se amparar na opinião dos outros, no aprovado pela academia, pela imprensa, pelo que bombou no Facebook etc. Você pega o livro, lê, decide o que achou e fim.
O último romance que comprei foi escrito em 1961 por Elie Wiesel. Escolhi porque tinha meia hora para matar antes de uma reunião e entrei na Fnac. Fui fuçar na parte de livros estrangeiros. Fiquei espantado com a pouca variedade - quase só compro livros pela internet, há muitos anos.
Vi Dawn, lembrei do nome de Wiesel, que nunca li, sobrevivente do Holocausto, prêmio Nobel da Paz etc. Li capa e contracapa e primeiras linhas. Interessou. É fininho, e se eu gostar tem mais dois fininhos, porque é o livro do meio de uma trilogia. Comprei. Adivinha: empaquei.
Veja mais:
+ Siga o R7 no Twitter
+ Leia os principais destaques do dia
+ Todos os blogs do R7




