Você arriscaria dezenas, centenas de milhões de dólares em um negócio que demora anos para gerar o primeiro faturamento, e tem retorno médio de 2,6%? Você precisa ter uma fortuna cinematográfica para topar arriscar tanto em troca de tão pouco.
Pois este é o retorno médio de um filme em Hollywood. Reunindo os poucos filmes que dão muito lucro, os poucos que dão muito prejuízo, e a maioria que dá um prejuizinho ou um lucrinho, a média é bem mirrada. Se você considerar que qualquer produção pequena nos Estados Unidos está na faixa dos R$ 51 milhões (US$ 30 milhões).
É pouco convidativa a perspectiva de um retorno de R$1.333 milhão (US$ 780 mil), depois de uns três anos de suspense. Do primeiro roteiro ao final da carreira do filme. Qualquer investimento financeiro conservador dá mais que isso.
Sim, o modelo de negócio tradicional dos estúdios com controle total da produção e das janelas de distribuição já foi colocado em xeque muitas vezes. Pelo cinema falado, pela cor, pela televisão, pela TV paga, pelo VHS. Mas desta vez o xeque é mate.
A diminuição da liquidez em todo o mundo, por conta da recente crise financeira, que ainda é cruel nos EUA. Some a isso a multiplicação infinita de distrações divertidas, nativas do mundo digital. Some a pirataria, a queda de venda de DVDs - 28% com relação ao auge de 2004, quando foram de R$ 20 bilhões (US$ 12 bilhões) - e a possibilidade de downloads não-pagos de filmes de todas as épocas, países e orçamentos.
Resultado: estão minguando as fontes de financiamento para Hollywood e elas não voltarão aos patamares anteriores. Ou é nisso que acreditam os grandes estúdios, pelo menos. Não é por outra razão que alguns dos mais poderosos executivos da indústria perderam seus empregos nos últimos meses.
A aposta de Hollywood é em aventuras grandiosas, com elencos de primeira, acabamento técnico impecável e personagens marcantes e preferencialmente famosos. A maior parte das produções caras que vemos em 2010, 2011 e outros obedecem a este figurino.
O que começa já a rarear? A produção média de Hollywood, produto de linha de montagem. É o romance água com açúcar, a aventurinha para toda a família, o policial genérico. Boa notícia. Porque pouca coisa notável saiu em décadas e décadas. Em vez de pegar um despretensioso cineminha para sair de casa, o consumidor agora exige um cinemão.
Este cinemão tem a marca pessoal dos diretores. Ame ou odeie Avatar ou Alice ou Robin Hood, difícil negar que são em primeiríssimo lugar resultado das visões pessoais de James Cameron, Tim Burton ou Ridley Scott. Ou, no caso de Homem de Ferro 2, a direção da Marvel.
A nova aventura do super-herói, que chegou esta semana ao DVD e Blu-ray, é um filme muito significativo neste novo momento. Foi a bilheteria mais garantida de 2010, o sucesso que ninguém duvidava. Foi desenvolvido dentro de um grande plano pela Marvel, editora onde o personagem nasceu faz quase cinquenta anos.
É o eixo central de uma grande franquia, com mais nove superproduções planejadas para os próximos anos. Mas traz as digitais de roteiristas e desenhistas de gibi, novos e antigos. É produto de um comitê, mas de criadores, não de burocratas. Neste sentido, é autoral ainda que criação coletiva.
A Marvel, comprada em 2009 pela Disney por R$ 7,3 bilhões (US$ 4,3 bilhões) faz exatamente o tipo de superprodução que combina com 2010. Melhor, com heróis conhecidos dos públicos e queridíssimos de fãs xiitas que não se contentam em ver e rever os filmes, mas exigem continuações, compram DVDs repletos de extras e querem se relacionar com estes personagens de muitas outras maneiras . O que rende milhões aos estúdios, via licenciamento.
O fato de Hollywood produzir menos títulos abre espaço precioso para filmes “pequenos” (pelo menos em termos de custo). É o crescente espaço da produção independente mesmo - como Guerra Ao Terror - e das cinematografias de países como a Argentina (que merecidamente levou o Oscar este ano, com o perfeito O Segredos dos Seus Olhos) ou o Brasil (estarei na primeira pré-estreia de Tropa de Elite 2 no próximo dia 5, em Paulínia).
O cineminha não vai deixar saudades. Muito melhor é o grande cinema , seja ele de orçamento grande ou pequeno.
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