Tropa de Elite 2 tem um subtítulo: “Agora, o Inimigo É Outro”. Quem? A democracia. É o que o filme conclui, na sua penúltima cena, quando a câmera dá um rasante sobre o Congresso Nacional, em Brasília.

A imagem ecoa sequência anterior, quando um helicóptero com o Capitão Nascimento coordena a invasão de um morro carioca, matando bandidos lá do alto - mira telescópica. Pouco antes do final, o filme defende a inutilidade da ação política.

Escândalos de corrupção que atingem os mais altos escalões do poder carioca são expostos, e a consequência é nenhuma. Alguns bandidos são substituídos por novas lideranças; o negócio continua como usual. O ceticismo com a possibilidade de avanço ecoa e amplifica o tom do premiado seriado americano The Wire, que é igualmente sobre tiras enxugando gelo - sem a truculência brasileira, claro.

Era nítida a confusão do espectador na pré-estreia de Tropa de Elite. A festa foi ontem (6) em Paulínia, cujo polo cinematográfico ajudou no financiamento do filme. O bonito Theatro Municipal estava abarrotado.

Queríamos todos vibrar, rir, torcer pela vitória do Capitão Nascimento contra “os vagabundos”, fossem quem fossem. A catarse nos foi negada. O aplauso final soou obrigatório – elenco e equipe técnica estavam presentes.

tropa de elite 2 ok <i>Tropa de Elite 2</i>: não há perdão para o Capitão Nascimento

O primeiro filme foi resultado de coragem criativa. O roteiro tinha como protagonista o jovem André Matias, policial e estudante de direito. Contava como ele se torna um brucutu assassino após treinamento para o Bope, o incorruptível grupo de operações especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Nascimento só aparecia depois de quarenta minutos de produção. Filmagens terminadas, outra história apareceu na montagem.

A performance eletrizante de Wagner Moura sugeria outra abordagem do mesmo enredo. Difícil decisão tomada, ajustes feitos, nasceu Tropa de Elite – direto e ambíguo, dramático e engraçado, impactante e inteligente. Virou fenômeno popular. A molecada gritava “pede pra sair” no recreio.

Os bordões caíram na boca do povo, e “Capitão Nascimento” virou sinônimo de cara da pesada e de soluções truculentas. O sucesso incomodou. Talvez mais do que ninguém, à própria equipe que criou o filme. Eles pensavam ter feito uma obra de denúncia. O espectador entendeu que o filme defendia a vitória contra o crime, a qualquer preço. Comunicação não é o que você fala, é o que o outro ouve.

tropa de elite 1 ok <i>Tropa de Elite 2</i>: não há perdão para o Capitão Nascimento

Tropa de Elite 2 começa como uma tentativa clara de corrigir o suposto mal-entendido. Capitão Nascimento, à frente do Bope, comanda uma ação que lhe dá grande popularidade entre a população do Rio. Ganha uma promoção, verbas gordas e carta branca para dizimar os traficantes. O objetivo é eleitoreiro: matar bandido traz votos para seu chefe, o governador do Rio.

Nascimento monta uma máquina de guerra: mais homens, mais e melhores armas. Massacra o tráfico com eficiência de filme americano (aparentemente, nenhuma bala perdida matou inocente nos morros). Favelas pacificadas, as milícias deslancham. São policiais corruptos que controlam o mercado negro na favela, a venda de gás de cozinha, ligações clandestinas para TV a cabo etc.

O “problema”, descobre Nascimento, não são as drogas. O problema é o sistema. A palavra é repetida umas cem vezes por Nascimento, em interminável narração em off que lembra chavões secundaristas dos anos 80. “Eu ia foder o sistema”, “o sistema é foda” etc.

Ouvimos quase duas horas as bravatas de Nascimento contra o sistema – e nada de ação. O anti-herói do primeiro filme, quem diria, agora é um fanfarrão. Trocou a farda negra pelo terno e gravata. Se arrasta como zumbi do funcionalismo pelos corredores da Secretaria de Segurança, responsável pela “inteligência” do departamento, que não existe.

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O que é exatamente “o sistema”? No filme, um conluio entre pequenos criminosos – tiras vigaristas, lumpens espertos, mídia oportunista, políticos em busca de eleição e ascensão. O único personagem honesto é um deputado idealista, defensor dos direitos humanos, mas sem poder de fogo real. Nascimento fica chocado ao descobrir tantas ligações perigosas.

Demorou 21 anos na polícia para um tira perceber que interesses políticos se apoiam em interesses escusos e determinam os passos da polícia? Duro de acreditar, assim como as várias coincidências que facilitam a elucidação da trama. Duro de acreditar, como ouvir Nascimento defendendo em uma CPI: “a PM do Rio precisa acabar”.

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O tema de Tropa de Elite 2 é chave, talvez o único tema político que importa: como combater a violência do Poder contra a população? Métodos do Bope? Saco na cabeça e tiro de doze na nuca? Contra governador não dá. Tropa de Elite 2 não confia na única resposta possível. Que é: só a democracia radical tem poder para equilibrar as relações entre cidadão, Estado e empresas.

Trata-se de termos uma população educada, capaz de entender questões complexas e decidir com maturidade. Trata-se de transparência, de debate informado, de regulamentar onde necessário e liberar onde possível. Trata-se de criar boas leis e garantir seu cumprimento. Trata-se de proteger os indefesos e controlar os poderosos. Criar uma sociedade com um mínimo de justiça é um processo longo e lamacento.

Nada é preto no branco. As vitórias frequentemente são de pirro – a palhaçada do STF com a Lei da Ficha Limpa ilustra bem. Mas é o melhor que o ser humano criou, e não temos arma mais eficiente. A história ensina que é a liberdade que vence a violência, não um assassino repleto de certezas – seja ele um líder político, uma autoridade religiosa ou um mero troglodita fardado.

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Tropa de Elite 2 nos nega uma resposta. Ampliar o alvo, de traficantes de morro para “o poder constituído”, foi valentia. Fechar na aliança crime-Estado-mídia e deixar de fora o setor privado foi parcial. Claro que um filme não é uma tese acadêmica, nem precisa ser uma peça de propaganda, ou dar contas de todas as questões brasileiras - só se ele se propuser a ser tudo isso.

O filme enfim verga sob o peso duplo de sua ambição e indecisão. As pessoas que habitam Tropa de Elite 2 soam pessoas, não personagens. Os atores estão uniformemente bem. Wagner Moura brilha. Os diálogos cintilam. Mas os momentos mais poderosos são amortecidos pela discurseira sem fim. E o sentimento cumulativo é de impotência. Como quase toda sequência, esta não escapa de diminuir o valor do original.

Tropa de Elite 2 nos dá a única coisa que jamais perdoaremos ao Capitão Nascimento: a rendição.

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