Meu ídolo Alan Moore, que ninguém acusaria de conservador - afinal, ele é um mago que adora um deus-serpente chamado Glyphon - não vota em eleições. E olha que antigamente ele costumava marchar em passeatas contra a Margareth Thatcher.

Depois das besteiras todas cometidas pelo galante Tony Blair, Moore disparou: "é isso que dá votar no candidato mais fotogênico. Desse jeito o próximo primeiro-ministro será o Brad Pitt. E depois dele, um gatinho recém-nascido, bem peludo e fofo. É só mostrar ele brincando com um novelo na campanha que os ingleses votarão em massa."

Bom, se tá bom pro Alan tá mais que ótimo pra mim. Precisa mais argumentos pra você não participar do processo eleitoral? Sério? Recebi vários emails e comentários que me cobram o fato de eu não votar.  Bem argumentados, bom conversar com gente inteligente. Demandam explicações melhores. Cobram posições políticas. Que não tenho. Mas improviso, vá lá.

Bem, não sou contra todo mundo votar. Quem quiser votar, vote; quem quiser anular, anule; quem não quiser comparecer, beleza. Escrevi o texto Eu Não Voto para deixar claro que as consequências de não votar são pífias, o que é público, mas não é de conhecimento público.

Como a Lei Seca, ou a lei contra fumo em bares, o voto obrigatório é lenda - a Lei diz que é obrigatório, mas ou a vigilância ou a punição ou ambas são pequenas. Agora, acho ótimo que existam eleições e Congresso e tudo. Melhor do que quando não existiam e lembro bem como era. Acredito em melhoras porque já vi acontecerem.

Ninguém se engane, continua business as usual: quem está no poder defende 99% do tempo os interesses de quem realmente tem poder, que é quem tem muita grana ou muito poder de pressão ou os dois. Mas com democracia, razoável liberdade de imprensa, internet livre etc., o processo fica bem mais permeável. Meno male.

Não sou dark de butique, não gosto desse papo de que o mundo está indo pra merda, as coisas pioram cada vez mais, o teto tá caindo etc. Hei - a população do planeta dobrou nos últimos cinquenta anos. Evidência inegável que a coisa não vai tão mal, certo?

Também não sou do time desses pseudoliberais babacas que ficam metendo o pau no Estado e no funcionalismo público etc. São sempre os primeiros que correm para pegar uma grana do BNDES quando a coisa fica feia, ou nos EUA, do Tesouro.

Sou a favor de vacina grátis na criançada, escola boa com computador e merenda joia pra todo mundo do jardim ao doutorado, hospital top na faixa, cidades adaptadas para deficientes e um policial simpático e bem treinado rondando a vizinhança.

Com que grana? Tem dinheiro sobrando. Tem que priorizar. Eu, por exemplo, sou contra emprestar dinheiro público para empresa com mais de 50 funcionários. Tá quebrando? Quebra, ué.

Se o dono do carrinho de cachorro quente da esquina pode quebrar, o dono da banca, o dentista, o mecânico, eu e você, por que a Sadia ou a Aracruz não? O grupo Votorantim pegou uns R$ 9 bilhões de dinheiro público, nosso, meu chapa.

Tem uso bem melhor para este dinheiro, na minha imodesta opinião. Sou bocudo? Nada, sou caretaço. Eu era anarquista foi no segundo colegial, sabia de cor aquela antologia Anarquistas publicada pela Brasiliense. O mundo ideal era o mundo sem Estado. Hmm, não é exatamente que mudei de opinião, é que não ligo mais para coisas "ideais".

Concretude é tudo na vida. Hoje acredito piamente na necessidade do Estado, de um Estado eficiente - e portanto nunca, jamais pequeno; muito menos num país do tamanho e com as necessidades do Brasil; ou você acha que grandes respeitam pequenos?

Mais fácil falar do que fazer um Estado eficiente, certo? É. Mais fácil falar do que fazer qualquer coisa - sexo extasiante ou mesmo um suflê convincente. Por isso democracia requer marcação cerrada nos gestores públicos e vigilância paranoica dos relacionamentos entre governos e interesses particulares, que sempre foram uma putaria sem fim, desde o tempo das cavernas. Nos cabe - a quem tem voz e cérebro, explicitar e esculhambar a bandalheira.

O que não se faz sendo o tempo todo polido, engomado e "responsável". Tecnologia, aliás, pode ajudar muito nessa tarefa, e sou muito crente no poder da tecnologia, como já escrevi cem vezes antes. Mas não assino a bíblia Wired da solução de todos os problemas através da aplicação das melhores práticas do Vale do Silício.

O melhor PC do mundo de nada ajuda a educação, se não estiver na escola, e com professores e estagiários bem treinados para sua utilização. WordPress pouco serve se você só usa para documentar meticulosamente suas obsessõezinhas de consumo chulé.

E no futuro, lá, no futuro distante, qual o regime político ideal para sanar todas as agruras do homem? Who cares? Tô nem aí. Existe o aqui e o agora. No presente temos que lidar com sistemas imperfeitos, governos, pessoas, processos eleitorais imperfeitos. Só burro se esconde da realidade. O que não pode significar a obrigatoriedade de assinar embaixo do que existe hoje.

Realismo não é rendição. Eu não voto porque as penalidades são mínimas, porque o sistema e o processo eleitoral brasileiros são muito bundas, porque nossa imprensa é muito conivente com os poderosos e, portanto nosso eleitorado é muito ignorante.

Desse mato difícil sair cachorro. Mas antes de mais nada, não voto porque não encontro candidato que me seduza. Se, por exemplo, o Xico Sá ou o Miranda forem candidatos, me alisto de cabo eleitoral na hora. Enquanto isso, vou participando da vida política brasileira de uma maneira mais natural para mim - escrevendo, papeando neste blog.

Não consigo nem pretendo me alienar completamente. Até porque vivo com os dois pés no presente mas tenho um projeto para o futuro imediato, chamado Tomás.

Assim, este século 21, e as dores de parto da criação da primeira sociedade verdadeiramente global, é o mais longe que consigo enxergar. Depois disso, o infinito. Adoraria, como Cortázar sonhava, acordar um dia a cada cem anos pra dar uma banda e ver como andam as coisas, mas minha curiosidade não vai muito além disso. Na prática, meu futuro vai até 2065, quando minhas cinzas virarão banquete de peixinhos de alguma ilhota do litoral norte.

O ano foi escolhido porque está tudo planejado para eu viver um século. E pretendo estar postando até o último dia. Pobres de vocês, amigos.

Veja mais:

+ Acompanhe o R7 no Twitter
+ Blog Eleições 2010
+ Leia os principais destaques do dia
+ Todos os blogs do R7


Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A