Charles Bukowski, conhece? O outro lado do sonho americano: um filho de imigrantes, perdedor nato, de meia-idade, enfrentando empregos opressivos e mal pagos, escrevendo desesperadamente - sua única válvula de escape para dar sentido a uma vida que não tem. Charme de Bukowski: bebedeira & baixaria.
Álcool fazia o polaco fanfarrão, engraçado, imundo. Jorrava diarreia pela boca. Tem que ler, tem que ver os filmes - Barfly, Crônica do Amor Louco. Agora, Harvey Pekar, igual a Bukowski em tudo, até no sangue polonês.
Big diferença: Harvey não tinha charme nenhum. Era um perfeito zero à esquerda. Emprego de horror como arquivista em um hospital de veteranos, em uma cidade do horror, Cleveland, onde nasceu e cresceu, mais um judeuzinho sem passado nem futuro.
Harvey só entendia mesmo de uma coisa, sua única paixão: jazz. Seu amor o salvou. Porque o conectou com outro perdedor inveterado, tão feio e esquisito como Harvey, e igualmente doente por jazz: Robert Crumb, que viveu em Cleveland no início dos anos 60. Crumb se tornaria o bam-bam-bam dos quadrinhos alucinados. É lenda.
Parou o Festival de Literatura de Paraty, semanas atrás. Parava Haight-Ashbury na San Francisco do LSD. Harvey continuava em Cleveland, sempre infeliz, sempre mal-casado, sempre sem uma única boa justificativa para continuar existindo. Foi só em 75, depois de muita insistência de Crumb, que Pekar lançou seu primeiro gibi, de muitos. American Splendor é sobre Harvey Pekar e sua porcaria de vida, seus problemas comuns, suas raras e mesquinhas vitórias.
Por isso é também sobre os veteranos do hospital; sobre os colegas de Harvey; sobre sua terceira mulher, e a menina que adotaram; sobre jazz; e sobre seu esforço sobre-humano para simplesmente fechar as contas no final do mês. É tudo que um gibi não era em 1975. É tudo que os gibis mais premiados dos últimos vinte anos têm que ser: autobiográficos e doídos.
Mas nenhum dos herdeiros chega aos pés de Harvey no quesito aflição. Muito menos na valentia. Porque Pekar, atenção agora, nunca desenhou um gibi. Ele só escrevia as histórias, “só”. Onde já se viu? Um gibi independente, preto e branco, sobre o nada, cujo personagem principal é o escritor, que não desenha nada?

Foram 17 gibis em 18 anos. Pekar perdeu uma boa grana imprimindo. A qualidade dos desenhos varia loucamente. Tem muita porcaria, muita coisa boa. Depois de um tempo Pekar virou imã de bons desenhistas, depois de um tempo. Spain Rodriguez, Joe Sacco, Drew Friedman, Eddie Campbell. Crumb, claro, deu empurrão importante.
Depois de uma certa hora, Pekar virou cult, de aparecer em David Letterman, dar entrevista, vender edições encadernadas de seus velhos gibis, receber adiantamentos de grandes editoras para produzir novos. E continuava produzindo. Briga com a filha? Gibi. Quase morre de câncer? Gibi. Harvey Pekar, o anti-herói, virou até herói de um filme - American Splendor, de 2006, assista.

Pekar tinha uma coisa que pouca gente tem: uma mulher que o amava e entendia. Joyce Brabner, doidinha de pedra, trabalhava em uma loja de gibis que vendia American Splendor. Começou a se corresponder com Pekar.
Depois de um tempo pegou um avião para conhecê-lo ao vivo. No primeiro encontro se apaixonaram. No segundo trocaram alianças. No terceiro se casaram.
Joyce se tornou parceira de Harvey em muitos dos quadrinhos, além de sua personagem, paciente apoiadora e orgulhosa cúmplice. Joyce, militante das boas causas liberais, editora de mão cheia, teve e tem uma vida profissional repleta de momentos para se orgulhar. Brought to Light, por exemplo, que reuniu Alan Moore e Bill Sienkiewicz numa reveladora e assustadora história das intervenções secretas da CIA no terceiro mundo.
Mas sua melhor obra foi com certeza o casamento com Harvey. Sem este amor, não haveria American Splendor. E foi Joyce que enterrou Harvey em julho deste ano, aos 70 anos. O veredito só saiu agora: vítima de overdose acidental de antidepressivos. Não importa. Pekar, o perdedor, venceu.

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