Publicado em 10/11/2010 às 11:58

Obrigado pela cocaína

Desregramento dos sentidos não é parada obrigatória para a grande arte, mas é frequente. Artista é bicho destrambelhado.

Drogas recreativas ajudam a perceber outros mundos, a enfrentar o assustador, a conectar com energias extremas, a acordar de manhã - tomou seu cafezinho hoje?

Café já foi droga ilegal e cocaína, legal. Droga perigosa depende da década em que você está.

Drogas desinibem e inspiram. Também podem fazer de um artista inspirado uma besta ególatra, ou de uma pessoa normal um pateta ou um trapo. Crack é o vilão do momento.

Ignoro quantos fumam crack e tocam vidas razoavelmente normais. Só ficamos sabendo dos crackeiros podres, andrajentos, se arrastando pelos centros.

Cocaína é outro departamento. A maioria esmagadora de quem cheira pó tem vida similar a quem toma umas biritas. Calcula-se o consumo anual atual em 600 toneladas métricas de cocaína, metade nos Estados Unidos, um quarto na Europa, outro quarto no restante do mundo.

É droga cara. Tem que ganhar razoavelmente bem para consumir. 36 milhões de americanos já usaram. Dois milhões usam.

Pó é a droga recreativa por definição, desde seu primeiro grande defensor, Sigmund Freud, que adorava - dizia que “é bem estimulante na genitália”.

freud ok Obrigado pela cocaína

Seu contemporâneo Robert Louis Stevenson era chegado. Retratou bem a divisão entre o médico polido e medroso, Dr. Jekyll, e a besta do id libertada pela coca, Mr. Hyde. Não necessariamente sempre, e não necessariamente para sempre.

Um século depois, Stephen King, o mais bem-sucedido escritor dos EUA, aspirou os primeiros 12 anos de sua carreira, e garante que isso o salvou de morrer de tanto beber. Mas hoje está careta.

Cocaína é particularmente útil para roqueiros, porque roqueiro se acha demais, e porque roqueiro tem que subir ao palco e se provar diariamente.

Não é mole para o espírito, viver cercado de puxa-sacos dizendo que você é um gênio, e sexy, e único - mas ter que provar ao vivo que é tudo isso mesmo, noite após noite.

No rock, não dá nem para começar uma lista de cheiradores famosos. É mais fácil fazer uma lista dos famosos por não cheirar, porque é pequenita.

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John Belushi cheirou para ter coragem, cheirou para ter carreira, cheirou quando ficou famoso, e morreu tomando um speedball - injeção misturando cocaína e heroína. Era um talento magnético.

Vi ontem pela milionésima vez John imitando Joe Cocker, cantando With a Little Help From My Friends, dos Beatles. John faz cara de louco varrido: “I get high with a little help from my friends”. É engraçado e emocionante, triste, visceral. Veja aqui.

Cinco anos depois estava morto, aos 33. Coca mata mais que outras drogas. Ficamos sem Belushi e ficamos sem assistir Belushi se tornar tão chato e irrelevante quanto todos os rebeldes de sua geração.

Na biografia de Carl Bernstein, que li e devo ter decorado uns pedaços, vemos John começando a se despedaçar, e o por quê, que é bem anterior ao pó.

Fomos poupados de assistir a sua decomposição e eventual volta por cima, renegando o passado, musculoso e bronzeado - como Robert Downey Jr., famoso junkie, hoje o Homem de Ferro e Sherlock Holmes, ídolo das criancinhas.

O que fica de John são seus momentos de gênio, no Saturday Night Live, em Animal House, e como Joliet Jake, à frente dos Blues Brothers. Sempre trincadaço de pó. De cara limpa, ele era um filho de imigrantes armênios, inseguro, infeliz, no limite do intragável.

Cheirado, era John Belushi. Obrigado pela cocaína.
john belushi.jpg tumulo Obrigado pela cocaína

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