Em época de eleição, duro não escrever sobre política. O mau humor impera, reclama a turma. Não se trata de radicalismo de butique ou supostos ideais messiânicos de pureza.
É ceticismo bem embasado e bem embolado em um feixe de frustrações. Meu livro de cabeceira da juventude era uma coletânea de Anarquismo da L&PM - tenham paciência comigo.
Não é porque não voto que não me importo, ou não acredito em nossa capacidade de transformar o mundo.
Na minha geração, não dá para fingir que política não importa, que eleição não importa, que quem ocupa a cadeira não importa. Sei muito bem que as coisas mudam. Sei porque vi.
Quem tem mais de 40 anos cresceu com uma espada sobre a cabeça, com lâminas nucleares, prontas para imediata execução de massa. Era a Guerra Fria, que frequentemente fervia e pegava fogo nos anos 80.
Ronald Reagan garantiu que a União Soviética e seus aliados do Pacto de Varsóvia eram o “Império do Mal”. Se era, minha geração assistiu à explosão da Estrela da Morte.
Nem na União Soviética a mudança foi tão surpreendente para mim quanto na Tchecoslováquia. Onde? É, o país nem existe mais. Praga fica na “República Tcheca”, agora. Estive lá em julho de 1988, de mochilão com a namorada.
A cidade, ex-mercado de escravos, ex-capital do Sacro Império Romano, ex-reduto de protestantes radicais, ex-tudo, era linda e como nenhum outro lugar antes ou depois. Mística, mitológica, sofrida, romântica. E, àquela altura, comunista.
Pôsteres do plano quinquenal em vigência adornavam as ruas do centro, lado a lado com estrelas vermelhas. Soldados russos entornavam vodca nos botecos. O cigarro era sem filtro. Zero de produtos de consumo à venda.
Uma versão comuna da Coca-Cola era o que se achava nos bares - melhor cerveja, barata e em canecões, em mesas coletivas. Encontramos lugar para dormir em um alojamento universitário, vazio, era férias; Praga atraía estudantes do terceiro mundo socialista, África, Cuba, e eles visitavam as famílias no verão.
Pouco mais de um ano depois, 19 de novembro, uma manifestação de estudantes reprimida com violência levou à queda do regime comunista. Em dez dias, o governo despencou de podre e um novo presidente assumiu - ninguém menos que Václav Havel, escritor, dramaturgo, ensaísta, o mais conhecido e ruidoso opositor do regime.
Havel era o protótipo do intelectual europeu dos anos 60 - radical, festeiro, rock'n'roll, fã de Velvet Underground e Frank Zappa. Era adepto da não-violência, mas não fugia de uma boa briga. E não era só da boca para fora: suas atividades lhe renderam vários anos de cadeia dura.

Estes dez dias ficaram conhecidos como a Revolução de Veludo. Porque foi mesmo uma revolução, mas sem sangue. Eu, que tinha estado lá um ano antes, não conseguia acreditar.
Havel foi três anos presidente da Tchecoslováquia, o último, e depois foi por dez anos presidente da República Tcheca. Desapontou muita gente, como era de se esperar - revolucionários têm essa mania. Mas deixou legados importantes: uma democracia multipartidária, com liberdade de expressão e imprensa, uma sociedade em paz e integrada ao Ocidente.
Havel - descobri hoje! - está vivo. Achei que tinha morrido, e ele escapou por pouco, de um câncer de pulmão. Que viva muito. Os tchecoslovacos não fizeram a revolução sozinhos, que dirá Havel. Os ventos da mudança sopravam fortes - dez dias antes do dia 19 de novembro, os alemães começaram a botar abaixo o Muro de Berlim.
Foi-se de embrulho União Soviética, Alemanha Oriental, Polônia, Hungria, foi-se tudo. Dá uma certa dó? Perdemos algo, sim. Mas ganhamos mais. Ficamos prisioneiros do capitalismo selvagem, ficamos sem alternativas? Não, porque o stalinismo não era alternativa. Quanto ao capitalismo, nos cabe abraçá-lo, reformá-lo ou destrui-lo. Escolha sua turma.
Nunca voltei. Me arrepia imaginar a avenida Vaclaske entulhada de outdoors, magazines fashion, lanchonetes fast-food. Mas hoje adoraria estar lá e levantar um brinde à velha Praga, a Václav Havel. Hoje, que a Revolução de Veludo faz 21 anos. Hoje, uma data para lembrarmos que as coisas mudam, e às vezes muito, e às vezes muito rápido.
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