paul mccartney gal embarrassing Por que eu não vou assistir Paul McCartney

“Adoro Paul McCartney”, me disse o cara. “Tenho tudo dos Beatles e quase todos os discos solo dele”. Em CD? “Não”, e me olhou como seu eu fosse o último boboca do mundo, “baixei tudo”. Estamos assim: você adora um artista e, portanto, rouba a obra dele.

Normal? É a nova norma. Vale para tudo que for digitalizável, livros, filmes, games. Uns dias atrás, a loja virtual iTunes começou a vender a obra dos Beatles pelo mundo afora. No Brasil, ainda não. Se você pudesse comprar Let It Be por R$ 1,99, remunerando os autores, os intérpretes, gravadora, editora, pagando impostos e remunerando a loja, você pagaria?

Você foi assistir a Paul McCartney? Quantas músicas dos Beatles você já baixou para o seu computador?

Escassez gera valor, é a regra do capitalismo. Como a oferta pirata de músicas na internet é farta, poucos se dispõem a pagar algo. Mas como a oferta de shows de Paul McCartney no Brasil é pequena - um a cada muitos anos, poucos shows, ingressos limitados - muita gente topa pagar grana boa. Tinha ingresso de até R$ 600. Esgotou rapidinho.

Escutei muito Beatles - foi a primeira banda que amei, e você sabe o que dizem sobre a primeira paixão. Com uns 13 anos, afetava um sotaquinho liverpudliano, para incompreensão dos meus professores no Yazigi. Ouvi pouco Paul solo - eu era mais da torcida de John, e, quando ele morreu, minha relação com os quatro congelou. Amo Beatles como quem ama uma ex-namorada que você nunca mais viu.

Com o tempo fui amolecendo, e passei a apreciar bobeiras tipo Silly Love Songs. Quando se trata de faturar, Paul McCartney é descarado como ninguém. Nos anos 80, ele perdeu a compostura. Ebony and Ivory? Say, Say, Say? Pipes of Peace? Ainda sei assobiar, mas vamos combinar que ele vai ficar para a história pelo que fez antes de 1970.

O show vale quanto custa? Depende do seu nível de paixão pelos Beatles. Ou da sua submissão ao consenso do momento. Paul está velho; nunca foi grande coisa no palco; o repertório Beatles do show é precioso, mas previsível; o resto só interessa para cultistas.

Mas como você não vai ver? É PAUL MCCARTNEY. O último dos BEATLES. Talvez ele morra logo! Talvez seja seu último show no Brasil! Fiquei, de verdade, com preguiça. Talvez mais preguiça do público do que do trânsito, do estádio, do show em si. Adoração abjeta me aflige.

E quando foi divulgado o set list desta turnê, e vi que ele faz homenagens a George Harrison (cantando Something) e John Lennon (Give Peace a Chance), a urtiga me dominou. Mesmo sabendo que ele ia cantar A Day In The Life.
Paul McCartney Por que eu não vou assistir Paul McCartney

E já vi Paul ao vivo. Da primeira vez que ele tocou no Brasil, 1990. História boa.

O único show no país era no Maracanã. Eu era editor da Bizz, podia ter armado com a gravadora; podia ter me pautado para cobrir; podia ter reservado hotel. Por alguma razão misteriosa, relutei, embacei, procrastinei - decidi não ir. No dia, me deu uma louca.

Peguei o carro, fui para Congonhas, comprei uma ponte aérea, táxi do Santos Dumont para o Maracanã, comprei ingresso - tinha de monte; naquela época não tinha internet nem pré-venda nem área VIP; os cambistas cobravam uns 10% a mais - e entrei.

Fiz amigos lá, com quem virei a madrugada detonando e falando de Beatles, e que nunca mais vi. Quando o sol nasceu, fui para o aeroporto, desmaiei no avião, acordei em Sampa, guiei para casa e capotei.

Foi emocionante, e para ele também. Até um Beatle se arrepia ao tocar para 180 mil pessoas. Mandou bem, pulou, tocou as obrigatórias, algumas da sua adolescência - That'll be the day. Sim, cantei Hey Jude e Back In USSR e Let It Be. Foi bom. Todo mundo devia ver Paul McCartney uma vez - e está ótimo. Nem me passou pela cabeça assistir de novo em 1993. Muito menos agora.

E daí, hoje, eu li este texto e me arrependi.

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter
+ Leia os destaques do dia
+ Conheça os blogs do R7


Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A