forasta 1  A vida como ela é, em quadrinhosCicatrizes é um animal estranho. É um livro autobiográfico, com escândalos familiares de fazer corar Luciana Gimenez (ou, como o autor David Small é americano, Jerry Springer). Tem momentos incômodos, até aterrorizantes.

Os personagens são pouco mais que sketches, mas pelo menos um é inesquecível e indecifrável. É uma história em quadrinhos feita por um ilustrador profissional que não sabe fazer histórias em quadrinhos. É visualmente bem contada, mas os desenhos são toscos - quase parecem rabisco adolescente de fundo de caderno.

Qualquer detalhe adicional sobre a história entrega o ouro. Melhor recomendar a visita ao site do autor, Davidsmallbooks.com. Tudo que você quiser saber sobre David, fora seu passado, está lá. Ilustrador premiado de livros infantis, ocasional ilustrador editorial. Formação em artes plásticas, carreira de artista trocada pela de ilustrador.

Mais de quarenta livros publicados. Prêmios à beça. Bem casado, sem filhos. Considerando sua infância e adolescência, é compreensível. Cicatrizes é mais um de uma longa série de quadrinhos autobiográficos que captura atenções da crítica e dos colegas. As orelhas da bem-cuidada edição brasileira trazem elogios de Stan Lee, Jules Feiffer, Robert Crumb, do capista da New Yorker  Harry Bliss,  e da editora de arte da revista, Françoise Mouly. 

Não precisa mais. Entrou em várias listas de melhores de 2009. Agora você pode ler em português, em tradução fluida do amigo Cassius Medauar. Questão inevitável: os aplausos são para a obra ou para o autor? Todo mundo adora uma história de superação. Se você quebrou muita pedra para chegar onde está, se você apanhou e deu a volta por cima, se você teve problema de saúde, era pobre, era feio - ganha ponto. É do ser humano, e é pedra de toque da cultura norte-americana.

Se Cicatrizes não tivesse como personagem principal um menino doente e infeliz chamado David Smalls, aplaudiríamos com tanta emoção? E Retalhos, de Craig Thompson (leia aqui)? Ed Brubaker? Chester Brown, Spiegelman, Kochalka, Trondheim, Josh Neufeld? Alison Bechdel? Marjane Satrapi?

Na última página pensei: o que o pai ou o irmão de David sentem vendo suas intimidades reveladas? É honesto expor sua própria mãe com tanta crueza? Será que em arte a autobiografia não é uma saída fácil, ainda que sofrida? Exibir suas feridas não é exibicionismo do mesmo jeito?

Julgue você.
 David small  A vida como ela é, em quadrinhos

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