Publicado em 07/12/2010 às 11:27

Para entender o Wikileaks, parte 1: 1993

Mito fundador do mundo moderno: a tecnologia nos libertará. Do trabalho, da distância, do tédio, da doença, da feiura e da morte. Esta crença vende carro, pasta de dente, botox, seguro de vida, passagem de avião, curso em faculdade. Vende candidatos. Vende carreiras. Vende estilos de vida. Vende o invendável - por exemplo, um iPad, que custa US$ 700 nos Estados Unidos, chegou esta semana ao Brasil por R$ 2.599.

Não vai sobrar um. Por quê? Porque o iPad encarna a fé no poder da tecnologia perfeitamente - melhor que qualquer outro artefato, neste 2010 que chega ao fim.

Nos anos 90, o culto à tecnologia ganhou uma heresia. Foi na Califórnia, uma Califórnia em depressão econômica, sem perspectivas, sem dinheiro, sem apoio governamental.

As indústrias de armas - “defense industry”, indústria da defesa, há! - foram à lona com o final da Guerra Fria.

Um monte de engenheiros dava sopa a custo baixo. Assistiu a Um Dia de Fúria? Michael Douglas, o nerd crânio desempregado que sai atirando por Los Angeles? É de 1993 e captura bem o espírito da época.

fallingdown Para entender o Wikileaks, parte 1: 1993

A heresia era: “a tecnologia que nos libertará será criada e dominada por nós mesmos”. Sua bíblia era publicada em capítulos, periodicamente: a revista Wired, lançada em março de 1993, por aí até hoje (li a número três e pedi demissão em agosto seguinte).

No altar tinha uma coisa amorfa, até então quase inútil, com nome de batismo cheirando a ficção científica classe B: internet. “Information Wants To Be Free”, diziam, e acreditamos. Uns menos - só querem ouvir música de graça, baixar filme de graça e tal - outros mais - Julian Assange, preso faz alguns minutos. Julian interessa como ponto focal, como mártir, como personagem pop. Julian fica para amanhã.

A internet floresceu nos Estados Unidos usando a infraestrutura desenvolvida pelo governo americano para a guerra. A internet era uma rede de comunicação interna do complexo militar-acadêmico, projetada para sobreviver a um ataque nuclear soviético. Quando a União Soviética implodiu, a internet progressivamente foi caindo nas mãos de um grupo de:

a) veteranos da contracultura que se redescobriam como homens de negócio; b) engenheiros e técnicos desempregados; c) big business do eixo mídia-entretenimento-telecomunicações-informática procurando pela próxima grande mina de ouro.

A internet se metamorfoseou. Foi virando uma coisa cada vez mais parecida com o mundo real. De um lado, shoppings arrumadinhos. Do outro, o caos. No meio, tudo. O escritor e futurista Bruce Sterling, esses dias no Brasil, usou uma imagem perfeita para ilustrar como se desenvolveu o Facebook: “é como uma favela brasileira”.

Sterling é um dos luminares da ficção cyberpunk e era colaborador da comunidade WELL, de onde veio a turma inicial da Wired. Teve coluna na revista durante anos. Sabe do que fala.

Sterling, como William Gibson, e depois Neal Stephenson, mapearam ficcionalmente o que viria. Jornalisticamente também: escreveram muito para a Wired e outros lugares sobre o interligado mundo novo.

A Wired virou o elo entre os libertários individualistas do Vale do Silício, os hippies-yuppies de San Francisco e os cowboys de cocaína de Hollywood, mega centro do entretenimento ianque-global. A Wired fez tecnologia parecer sexy e fez parecer que qualquer um podia pegar o trem-bala andando.

E depois apareceu uma coisa chamada Web. E depois apareceu um gibi chamado The Invisibles. E depois apareceu um filme chamado Matrix. Eu podia ficar escrevendo até amanhã sobre este assunto. E acho que é o que vou fazer mesmo. Até eu mesmo entender exatamente qual é a importância - política, cultural, profunda - do que está acontecendo com o Wikileaks.

O gancho é: existe uma organização jornalística sem fins lucrativos chamada Wikileaks. Ela se dedica a publicar documentos que o poder quer manter secretos. “O Poder”, no caso, são grandes governos, grandes empresas, grandes instituições públicas ou intergovernamentais. “O Poder” é ocupado e mantido por gente que apronta. “Leaks” quer dizer “vazamentos”, porque estes documentos foram sempre “vazados” por alguém.

“Wiki” é um termo genérico para atividades colaborativas realizadas na internet, de onde vem a famosa Wikipedia. Todos os documentos são verificados pela equipe antes de serem publicados. Nunca se provou que um documento publicado pelo Wikileaks seja falso.

O Wikileaks funciona à base de doações. Começou em dezembro de 2006. Tem um comitê que o fundou e dirige, onde está um brasileiro, Francisco Whitaker. Tento falar com ele desde quinta-feira. Me respondeu ontem. Não tem nada a comentar neste momento. Compreensível.

O Wikileaks tem cinco funcionários full-time e mais de oitocentos voluntários. Não tem sede. Não está em um servidor só. É incensurável, porque seu endereço é o ciberespaço. Sempre trabalha junto com órgãos de imprensa para divulgar as informações - o mais conhecido é o inglês e respeitadíssimo Guardian, possivelmente o melhor jornal do mundo.

Era, até uma semana atrás, coisa para iniciados, gente que se interessa por política e novas mídias. O Wikileaks já ganhou prêmios da Economist, da Anistia Internacional, e por aí vai. Não é brincadeira de irresponsáveis.

Mas o Wikileaks iniciou a publicação de mais de 250 mil documentos secretos do governo americano. Governos do mundo caíram de costas, e de pau. Obama proibiu funcionários públicos de lerem. A Amazon impediu o Wikileads de usar seus servidores, o Paypal de usar seu sistema de doações. Políticos americanos às raias da histeria pediram prisão de todos os integrantes do Wikileads.

Julian Para entender o Wikileaks, parte 1: 1993
A face pública do Wikileads é um australiano, Julian Assange. É bocudo. Estava sendo procurado por estupro - de duas voluntárias do Wikileads na Suécia. Ele diz que o sexo foi consensual. Assange foi declarado inimigo público número 2 dos Estados Unidos, atrás apenas de Osama Bin Laden.

Nos últimos dias, a imprensa de todo mundo reporta minuto a minuto novos documentos publicados pelo Wikileaks. Os documentos comprometem os Estados Unidos. O militar que ajudou o Wikileaks a conseguir estes documentos está preso sob segurança máxima e incomunicável.

Assange se entregou à polícia londrina às nove e meia da manhã nesta terça-feira, por conta do mandado da justiça da Suécia, pelas acusações de estupro. Seu advogado já afirmou que vai contestar o pedido de extradição da Suécia.

A batalha legal começa. “The first info-war has begun”, twittou estes dias John Perry Barlow, uma das luzes libertárias que guiaram o caminho da internet até aqui. A guerra da informação começou - e quem não escolher lado será tragado pelos acontecimentos. Muitos decidiram que o Wikileaks não enfrentará os poderosos sozinho.

Desde que começaram os ataques contra a organização, mais de 500 sites-espelho publicam simultaneamente os documentos americanos. Não é possível mais impedir que a publicação continue.

A batalha moral está vencida. Se Assange é culpado de estupro, que pague. O Wikileaks não é Assange e não é de Assange. Como a Wikipedia e a internet, é de todos nós. O único crime do Wikileaks - e É CRIME - é nos permitir crer que, sim, a tecnologia nos libertará. A nossa tecnologia, não a deles. Assunto para amanhã.

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