Se você é jornalista e tem interesse em desenvolver suas habilidades como crítico ou resenhista - ou mesmo se ambiciona compreender melhor produtos culturais de qualquer tipo - o melhor livro que eu conheço é o ABC da Literatura, de Ezra Pound.
Em português tem, mas acabou - está esgotado nas grandes livrarias. Sobra sebo ou a iniciativa futura de algum editor esperto; vai ver tem na internet e não encontrei. No inglês original é mais divertido, ABC of Reading, e tem de graça na internet. Uma breve apresentação, aqui.
Mesmo que você não seja jornalista, nem esteja estudando jornalismo, provavelmente é um autor publicado. Você tem blog? Escreve no Facebook?
No Twitter? Comenta em blogs por aí? Faz trabalho para a faculdade?
Apresentação no trabalho? Então escreves. Então pode ser útil ler isso aqui até o final.
Ezra Pound, entre outras coisas, resumiu que o objetivo de uma crítica é responder duas questões:
a) a obra criticada tem objetivo de alguma validade - moral, estética, educativa, de entretenimento etc.?
b) estes objetivos (ou objetivo) foram alcançados em que medida?
Este método (absurdamente simplificado aqui) permite que você exerça crítica de alto nível, seja tratando do Luan Santana ou de Stravinsky, de Woody Allen ou da novela das sete. De arquitetura e de videogames também.
Ezra Pound também defende em seu ABC que a crítica seja “científica” - utilize o método científico ao máximo possível, isolando inicialmente a obra de seu contexto; e a comparando a iguais e contrastando com diferentes.
Porque em última instância não podemos parar no item b). Se a obra tem um objetivo válido, e se alcançou seu objetivo em boa medida, mas este resultado já foi alcançado mil vezes por outras obras, este fator deve ser considerado pelo crítico.
Outro ponto fundamental do ABC é a divisão que Pound faz entre seis tipos de criadores. Eles são:
a) inventores - os que criam uma forma radicalmente nova
b) mestres - os que levam esta forma ao seu ápice
c) diluidores - os que diluem esta forma, a enfraquecem, a resumem em seus pontos mais óbvios (frequentemente são os que atingem maior sucesso comercial)
d) bons escritores sem nenhuma qualidade especial
e) beletristas - criadores que são prisioneiros da forma
f) os lançadores de modas, que farão grande estrondo e logo passarão, retornando as coisas ao que eram anteriormente.
Ele falava de literatura, mas você pode aplicar este modelo com sucesso na música, na moda, no teatro, artes plásticas, artes gráficas, games etc.
E frequentemente alguns criadores passeiam por diversos destes papéis durante sua carreira - ou mesmo simultaneamente.
Exercício divertido e/ou útil: em que categoria se enquadram seus artistas favoritos?
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