forasta A São Paulo roqueira de Roger Cruz 
Não consigo gostar, nem esquecer, de Xampu - Lovely Losers, de Roger Cruz. Há meses ensaio escrever sobre o livro. Temo descer o pau. Temo ser condescendente. É trabalho do coração de Roger, que penteia os roteiros há mais de década.

Se passa entre o final dos 80 e o início dos 90, na São Paulo da Galeria do Rock, das casas de show fuleiras, dos discos de vinil, da maconha, da birita, do sexo pré-Aids - ou pelo menos desencanado. Lembro bem. Sou só alguns anos mais velho que Roger.

Ele foi o primeiro brasileiro a realmente pegar fama no mercado americano de quadrinhos, porque “chegou lá” - nos X-Men, gibi mais vendido da época. Tinha estilo muito próprio, que erroneamente atribuem a uma conexão com mangá.

Tem a ver, sim, com desenho animado japonês, o que é outra coisa; e com o Capcom-style, o visual dos personagens da produtora de games responsável por Street Fighter e muito mais. Roger é um paulistano, mestiço de japonês, que cresceu nos anos 70/80. Viu desenho japonês paca, leu gibi de super-herói.

Roger foi massacrado na máquina de produção americana, como tantos outros, lá e cá. Produziu muito. Produziu demais. Produziu trabalhos muito inferiores ao seu talento, com frequência. Copiou na cara dura arte de gente como Jim Lee e Joe Madureira, o que queimou um tanto sua fita por lá. Roger confirmou publicamente e explicou: aprendi copiando. Quem não? O crime, como de costume, é ser pego.

Xampu é, finalmente, seu trabalho pessoal. Assina roteiro, arte, projeto gráfico e diagramação. O resultado é um bonito álbum publicado pela Devir, com muitos acertos, algumas fragilidades, uma decisão equivocada:
em vez de preto e branco, a arte é toda em sépia. Enfraqueceu muito o impacto dos desenhos - e que desenhos.

Roger tem completo domínio da técnica dos quadrinhos - constrói personagens, controla o ritmo da leitura, capricha nos detalhes, desenha qualquer coisa, sabe onde colocar a câmera, te força a virar a página.

 xampu ok A São Paulo roqueira de Roger Cruz

Não consigo acreditar muito nas meninas que povoam as histórias de Xampu. Os caras são totalmente convincentes. Roger captura a voz dos paulistanos, a conversa mole acendendo um cigarro no outro, o papo macho dos manos, o cheiro das privadas nos bares sujinhos.

Um personagem, o vocalista Sombra, é inesquecível. Já o romance de Max e Nicole, melhor esquecer. Difícil escrever papo discutindo a relação. Um editor malvado meteria a mão em alguns diálogos frouxos. Ainda penso como editor; leio alguns gibis pensando em como melhorá-los; e se eu publicaria como está; e neste caso, a resposta é não sei.

Recomendo Xampu? Sim, sem babar ovo. É uma obra terna e crua, de um de nossos criadores mais completos, que evidencia o enorme potencial que ele tem a explorar. E se o perfume das histórias é acridoce, não é delicadinho e ensimesmado como tantos quadrinhos autobiográficos, na gringa e aqui. Roger Cruz não faz drama à toa. Não é emo, não é indie. É rock.

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