“Pai, me dá um R4?”. A resposta do meu filho para a pergunta “o que você quer ganhar de aniversário” não era o que eu queria ouvir. Mas não dá pra esconder das crianças certos fatos da vida.

Um deles é que existem maneiras de você jogar centenas de jogos sem pagar nada. O Nintendo DS é o console mais popular entre os colegas de classe de Tomás. Brincando na casa de um deles, o amigo exibiu o chip R4.

Meu filho ficou doido. Não sabia que existia uma coisa tão maravilhosa! Expliquei: filho, esse chip é para jogo pirata. Pirata? Tomás já encrencou. De tanto assistir a DVDs com aquelas campanhas contra a pirataria, se convenceu de que produto pirata tem a ver com crime organizado, assalto, sequestro. Mas pensou um pouco e questionou: “mas pai, os jogos são todos baixados da internet, não foi comprado no camelô.”

Eu falei é, mas os criadores dos jogos e as empresas que investiram neles não estão recebendo nada por isso. E ele: “mas e quando eu jogo no site do Cartoon? Ou no Club Penguin? Também é de graça...”
forasta ok Meu filho, o pirata

Meus argumentos não resolveram muito. Meu problema era maior que a maioria dos pais. A Tambor, onde trabalho de verdade (isso aqui é diversão, não reparou?), tem como negócio principal ser a única empresa brasileira de mídia e marketing especializada em games.

Para aliviar, emprestei da redação um novo game de DS, Toy Story 3, baseado no filme. Legal, mas Tomás zerou em menos de 48 horas. E cutucou, “tá vendo, pai, é por isso que eu preciso de um R4! A maioria dos games a gente zera muito rápido e, para comprar muitos, você sempre diz que é caro...”

Você baixa música da internet? Séries? Filmes? Não tem diferença nenhuma, do ponto de vista legal, entre baixar uma canção, um livro ou um videogame. Se você tem filhos e um HD cheio de música, está ensinando para eles que baixar games sem pagar é aceitável.

Nem entro na questão ética, mas puramente comercial. Conheço dono de loja de games que é viciado em séries, baixa aos montes e reclama da pirataria nos games. Assim não dá, camarada...

Da mesma maneira, está coalhado de jornalistas, estudantes de jornalismo, escritores, fotógrafos e ilustradores e criadores em geral, que baixam tudo na faixa, mas querem receber pelo que criam. Não dá para você colaborar para a criação de um mundo em que o conteúdo é de graça e depois querer receber pelo conteúdo que você cria - só porque foi você que criou. No que és diferente de todo mundo?

Não defendo um mundo que não existe mais. Nem defendo o vale tudo. Mas o impacto da tecnologia é enfrentado de maneiras diferentes, por setores diferentes. Todo mundo sempre cita a indústria fonográfica, dizimada pelos downloads ilegais.

E de fato dou um desconto para baixar música sem pagar nada - as gravadoras pisaram muito na bola e continuam forçando nos empurrar o velho modelo de cobrança goela abaixo. Fazem por merecer... E os criadores espertos já não dependem mais delas; os menos espertos, bem, a vida é injusta.

Enquanto isso, nunca se vendeu tanto filme como hoje. Nós, do mundo do jornalismo (e dos games), vamos nos inspirar no mundo da música ou do cinema? Hoje, você pode consumir um filme de muitas maneiras. No dia da estreia, você já tem versões para download digital ilegal - e em breve, vai ter para download digital legal também.

Mas quem quer assistir a um filme como Tron num monitor? Pouca gente. A maioria de nós vai preferir Olivia Wilde em glorioso 3D, com dolby digital e, se possível, em uma tela Imax.

tron legacy ok Meu filho, o pirata

Uns dias depois, este filme vai chegar aos camelôs, em um DVD piratão por R$ 5. Imagem ruim, pirataria cara dura. Algumas pessoas vão comprar e ver em casa. Entre 60 e 90 dias depois, este filme estará no Pay-per-view, em versões HD e normal. Mais um pouco e teremos o DVD simples; e o DVD recheado; e o Blu-ray, repleto de extras. Você pode escolher entre alugar, por R$ 8 ou R$ 10 reais, ou comprar, por preços diversos.

Em um ou dois meses, as locadoras estarão vendendo DVDs seminovos, com grande desconto. Mais alguns meses, estarão vendendo DVDs novos por preço muito acessível; e os seminovos estarão baratíssimos, quase o preço de uma locação.

Em alguns casos, no final do processo, as distribuidoras ainda oferecem os filmes em DVDs sem nenhum extra, sem menu, dublado, em caixinha de papelão. Tenho diversos desses em casa, de desenhos legais como Lilo & Stitch, por exemplo. O preço varia entre R$ 5,99 e R$ 12,99.

Antes disso, o filme terá sido vendido para a TV paga, onde poderá ser visto de graça por quem tem uma assinatura (ou um gato, o que é outra história). E no final de tudo, um ano depois, você ainda pode ver esse filme de graça na TV aberta. Basta, bem, ter comprado um televisor.

Você percebe de quantas maneiras a indústria do cinema vende o mesmo produto? Vende em formatos diferentes, com preços diferentes, para públicos diferentes, e derruba o preço radicalmente após o primeiro período de lançamento.

Enquanto isso, o formato-padrão do negócio de games ainda é vender o lançamento de primeira linha por um preço internacional que varia entre US$ 50 e US$ 80 (R$ 85 e 136 em média). Tanto faz se for uma caixinha ou em download digital, via Steam e similares; e versão digital de um jogo de primeira para console ainda é raridade. E boa. Um ano depois, o preço pode cair até uns 25%, e não mais que isso. Dois anos depois, você muitas vezes nem encontra mais para comprar.

Esse modelo é limitado demais. Não é por acaso que está sendo questionado pelo consumidor, que passa mais e mais tempo em jogos casuais na internet, seja no Facebook ou em sites de jogos; no iPhone e no iPad; e, infelizmente, muitas vezes pelos caras mais apaixonados por games. O comprador médio de jogos de console compra dois, três jogos por ano. O gamer hardcore adulto exige cinco, seis por mês no mínimo. Meninos de sete anos? Se marcar, é um por dia...

Agora, te pergunto: se um filme que custou US$ 150 milhões (média de R$ 255 milhões) pode ser explorado de diversas formas, custar preços variados e ter no seu formato premium (Blu-ray) um preço máximo de R$ 79, porque um game, que custa muito menos do que um filme, tem que custar R$ 159, R$ 200 ou mais? E livro, fotografia, reportagem investigativa - quais os modelos que funcionarão daqui para frente? Múltiplos; nenhum que exista hoje.

Atacar este problema não está somente na mão das grandes empresas internacionais. Nem basta os impostos baixarem no Brasil. Cada distribuidor, cada lojista, cada empreendedor, criador e cidadão têm que se posicionar, atuar, inovar. O que não resolve é empurrar com a barriga e fazer o de sempre (por exemplo, cobrar por uma revista no iPad a mesma coisa que se cobra na banca). Culpar o consumidor, ou “a indústria”, é muito fácil, mas na prática reclamar não é bom modelo de negócio.

Torço para que dois segmentos que muito me interessam - jornalismo e games - se espelhem cada vez mais no exemplo do cinema, para não termos o destino das gravadoras. Enquanto isso não acontece, fiz uma assinatura do Club Penguin para Tomás - R$ 8,99 por mês, barato! - e torço para ele não voltar ao assunto do R4...

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