A porcentagem da população que usa carro ou moto aumentou de 45,2% para 47% em 2009. Do ano passado para este, deve ter sido parecido ou mais.

O que significa que mais da metade da população depende de transporte público. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), divulgados ontem.

Vamos focar nas áreas urbanas? São 16,5 milhões de domicílios com carro, 4,07 milhões com moto e 3,2 milhões com carro e moto. São 25,9 milhões de residências sem nenhum veículo. Na classe alta, percentuais maiores.

Na faixa de pobreza extrema, com renda de até um quarto de salário mínimo per capita, 17,7% das famílias possuem carro ou moto.

São poderosos os incentivos para uma família fazer o sacrifício que for para conquistar seu carro ou moto. Incentivos negativos, porque é dureza enfrentar diariamente a odisseia casa-trabalho no transporte público.

Quem não passa por isso não faz ideia. Conheço uma moça que acorda quatro da manhã para chegar ao trabalho às oito horas - isso se não tiver chuva, greve, kombi quebrada.

Incentivos positivos, porque com um carro é mais fácil fazer compras, passear, viajar, levar mãe doente no médico, arrumar namorada etc.

É uma mão na roda, e também lazer e status. E incentivos econômicos, porque hoje você compra carro em até 60 meses, o governo de vez em quando baixa os impostos, os usados estão a preço de banana e por aí vai.

Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito, em 2009 a frota total no Brasil era de 59.361.642 automóveis.

Quase 60 milhões, e a esta altura, mais. Na cidade de São Paulo eram 6.14 milhões. No estado, 19 milhões, mais ou menos a soma das frotas dos estados do Rio, Minas, Paraná e Rio Grande do Sul.

Penso que tenho que atravessar uns 20 kms de carro amanhã, o que dá uma ou duas horas de trânsito paulistano pré-Natal. Horror. Viro a página (ainda viro páginas. Vivo com um pé no mundo digital, outro no medieval).

congestionamento ok Quanto mais pobres, melhor

Está lá o estudo Saúde Brasil 2009, realizado pelo Ministério da Saúde.

Compara dados de saúde pública de 1996 a 2007. Diabetes? Mata 10% a mais. Câncer? 4% a mais. Doenças cardiovasculares? 33% a menos! Menos fumantes?

E de morte matada, não morrida? Em 2008 o Brasil registrou mais de 1,6 milhões de óbitos, sendo 133.644 de “causas externas” - acidentes ou violência. São 12% do total.

Mais ou menos como se caísse anualmente uma bomba atômica na cidade do Crato, no Ceará, e exterminasse todos os moradores.

Na realidade não é assim, porque no Crato têm crianças, idosos, mulheres. E os números do ministério garantem que morrem de morte matada cinco vezes mais homens que mulheres - 112,4 mil homens morreram em 2008 de acidente de carro ou moto, ou assassinados.

Vai morrer mais gente de acidente no futuro? Vai. O trânsito vai piorar muito? Com certeza. A previsão da ONU é que nos próximos dez anos a classe média na região metropolitana de São Paulo dobre, de 4,5 para 9 milhões de pessoas, de um total projetado de 20,5 milhões. Na maioria das grandes cidades brasileiras, a tendência é parecida.

Isso significa que em 2020, em São Paulo, 11 milhões de pessoas estarão abaixo da classe média. Continua sendo inaceitável. Na prática, teremos menos miseráveis - meno male.

O problema é que teremos basicamente as mesmas estradas, ruas e avenidas, assim como os mesmos esgotos, a mesma rede elétrica, o mesmo espaço vital e, infelizmente, os mesmos políticos.

O que resta? Torcer para que a ONU tenha errado nas projeções? Sair daqui correndo, virar hippie e plantar cogumelo no cerrado? Rezar para a eleição de governantes com um mínimo de vontade de mexer o traseiro?

Alguém que pelo menos copie soluções práticas que funcionaram mundo afora?

Todo mundo torce para acabarmos com a miséria no Brasil. Mas quando se trata de carros, de trânsito e acidentes, não dá para negar - quanto mais pobre, melhor.

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