“You're invisible now, you got no secrets to conceal” - Bob Dylan, Like a Rolling Stone.
Lou Stathis: “Toda a obra de Philip K. Dick é atravessada por duas perguntas: o que é humano? O que é real?”

Philip K. Dick, França, 1977: “Posso estar falando sobre algo que pode existir ou não. Então tenho liberdade para dizer tudo. Ou nada. Em meus livros, escrevi sobre mundos falsificados, mundos semirreais, alucinados mundos particulares. Muitas vezes habitados por uma só pessoa - enquanto os outros personagens vivem em seus próprios mundos. Nunca tive uma teoria sobre por que este tema dominou meus 27 anos como escritor. Agora entendo. O que percebia eram realidades parcialmente manifestas, que tangenciam a mais concretizada de todas - esta, em que a maioria de nós consensualmente acredita. Estamos vivendo em uma realidade programada por computador. A única pista que recebemos sobre isso é quando alguma variável muda, alguma alteração na realidade acontece.”
Uma história: máquinas inteligentes controlam um mundo virtual. Ele pode ser acessado por humanos, que ganham lá versões digitais de si mesmos e poderes especiais. Para isso, o humano precisa aceitar um desafio: descobrir quem realmente é. No mundo virtual, enfrentará combates mortais contra as máquinas que preparam um ataque definitivo para dominar completamente a Terra. Somente ele, o escolhido, pode impedir que isso aconteça. Mas, para isso, precisa aceitar os ensinamentos de um mentor místico e o amor de uma bela e misteriosa guerreira. É Matrix? É. É Tron - O Legado? É.
1980: Jean Giraud, o mais importante criador do quadrinho francês de sua geração, é recrutado para participar da criação de Tron. Assina Moebius. Criará cenários e roupas para o filme. É convidado para criar conceitos para um novo filme chamado Blade Runner. Recusa: está ocupado com a animação Les Maîtres des Temps. Absurdo - Moebius é pai de Blade Runner. Giraud é co-fundador, em 1974, e colaborador frequente da Metal Hurlant, revista que reúne os artistas mais visionários da década. 1976: Giraud ilustra uma história de Dan O'Bannon, The Long Tomorrow. É uma homenagem aos detetives noir dos anos 40, estilo Philip Marlowe - o futuro é uma cidade violenta. Dan O'Bannon: animador em Star Wars, autor da história original de Alien - O Oitavo Passageiro - e, anos depois, de Total Recall e Screamers, baseados em histórias de Philip K. Dick. 1977: a Métal Hurlant ganha uma versão americana, Heavy Metal.
1980: Syd Mead é contratado como designer de produção de dois filmes:
Tron: todos os veículos. A moto, o tanque, o veleiro, a nave.
Blade Runner: todos os veículos e mais a cidade.
Syd Mead: ilustrador comercial e conceitual para empresas como Ford, US Steel, Phillips. Vai para Hollywood (clique aqui).
Mead cria o visual de V'Ger - a super-inteligência artificial que ameaça a Terra em Jornada Nas Estrelas, o filme de 1979 que ressuscitou o seriado cultuado dos anos 60. V'Ger não é do mal. V'Ger só quer se unir ao “Criador”. V'Ger é a sonda especial americana Voyager, lançada em 1976, que retorna 300 anos depois após uma tour no espaço. Para cumprir sua missão: coletou dados, agora vai entregar a quem a criou. A ameaça termina em um abraço máquina-homem - ou, no caso, mulher.

25 de junho de 1982: estreia Blade Runner nos Estados Unidos. Fracasso: US$ 6,15 milhões no primeiro final de semana. Hoje: o filme mais cultuado de seu tempo.
9 de julho de 1982: estreia Tron nos Estados Unidos. Fracasso: US$ 4,8 milhões no primeiro final de semana. Hoje: origem da maior aposta multimídia da Disney em muito tempo - filme, desenho animado, videogames, merchandising. Explicação na época para o fracasso: a concorrência direta de outra aventura de ficção científica, Jornada Nas Estrelas: a Ira de Khan. Khan Noonien Singh é o tirano transgênico super-humano obsecado pela vingança. Kirk e Spock: emoção x razão, instinto x lógica, homem x máquina. Separados em A Ira de Khan, reunidos em A Viagem para Casa - imbatíveis juntos. Spock: as necessidades de muitos são mais importantes do que a necessidade de um. Kirk: as necessidades de um podem ser mais importantes do que as necessidades de muitos.
Julho de 1982, meio do terceiro colegial, Distribuidora Gianetti, praça da Catedral, Piracicaba: meu mais recente ídolo, Lou Stathis, escreve na minha revista favorita o obituário de Philip K. Dick: “ele nunca verá sua obra transformada em filme”. O artigo é ilustrado com fotos da versão cinematográfica do romance Do the Androids Dream of Electric Sheep?. É de Ridley Scott, o mesmo diretor do filme que mais me assustou até então, Alien. O filme é Blade Runner. Nunca ouvi falar de Philip K. Dick antes. A revista é a Heavy Metal. É cara. Economizo todo mês dinheiro da cantina para comprar.

2010, agora: descubro de onde veio o nome Blade Runner: de um roteiro escrito por William Burroughs. O nome era muito mais fílmico do que Do The Androids Dream of Electric Sheep?. Os produtores compram os direitos. A história de Philip K. Dick muda de nome.
1982: Assisto a Tron no cine Rívoli. Assisto a Blade Runner no Cine Gazetinha. É meu primeiro fim de semana sozinho em São Paulo, para onde mudarei em poucos meses - se (SE) passasse em jornalismo na USP. Tron é novidade. Blade Runner é revolução. Frankenstein punk: a criatura se volta contra o criador. A máquina conquista inteligência e vontade próprias. Pode escolher. É “humana”. A história é velha. A sensação é um furacão de frescor.
Blade Runner hoje: velho, porque aconteceu. Foi influência determinante em tudo que importou dos 80 para a frente. Foi o pontapé inicial da literatura cyberpunk. Foi o futuro a ser desejado/desdenhado destruído. Mudou as roupas, a música, o discurso. Assistir a Blade Runner hoje é impossível, salvo por nostalgia - tudo o que está lá você já viu e viveu um milhão de vezes. Tem um único herdeiro em ambição e influência: Matrix.
Temas iguais não significam mensagem idênticas. Às vezes, as semelhanças escondem sinais opostos. Matrix e Tron são gêmeos bivitelinos; O Exterminador do Futuro é um primo; 1984, Metrópolis, Super-Homem e Admirável Mundo Novo são avós; a família é enorme e tem muitos ramos. Todos lidam com nossa crescente dependência da tecnologia; com a influência disruptiva da aceleração do conhecimento; a sedução da técnica; com “o sistema” e como ele exige e se alimenta de nossa desumanização; com a sedução da rendição; com a possibilidade de fuga e de resistência.
Mas Tron - O Legado e Matrix são irmãos corsos. Suas mensagens são diamestralmente opostas. Cada qual se insere organicamente em uma das duas correntes mitológicas centrais da cultura popular do século 21. O século 20 foi o império da técnica: estados superpoderosos concentrando superpoder militar supertecnológico. O século 21 será - já é - diferente. Exige novas odisséias. Matrix abriu a primeira década do milênio e deu o tom do que viria. Tron - O Legado não a fecha. Tem outro nome típico da ficção científica que merece esta honra: Wikileaks.
Tron é fantasia. Blade Runner e Matrix são ficção científica. Nem sempre é fácil diferenciar. O que 99% dos cidadãos entendem como ficção científica é um micronicho - Space Opera, o lugar onde a fantasia se traveste de ficção científica; uma aventura romântica, idealizada, com os dois pés no passado, mas com roupagem futurista. Em duas palavras: Star Wars.
Carta de Philip K. Dick sobre o filme Blade Runner, após ver cenas do filme que ainda não tinha estreado na TV: “não é ficção científica. Não é fantasia. É, como Harrison Ford disse, Futurismo... não é escapismo, é super-realismo, tão detalhado e autêntico e explícito e convincente que minha 'realidade' cotidiana se tornou instantaneamente pálida em comparação”. A carta datilografada está aqui.
Todo mundo é a favor do avanço tecnológico, do progresso, do futuro - da boca para fora. A maioria dos que batem palmas para o avanço propõem que as coisas mudem para que permaneçam como estão. A revista semanal excitada com engenhocas quer que as coisas permaneçam como estão. O político que discursa sobre a necessidade de investimento em inovação quer que as coisas permaneçam como estão. As empresas que pregam a sustentabilidade querem que as coisas permaneçam como estão. Por quê? Porque o verdadeiro amanhã é impenetrável e muito diferente do hoje e, portanto, assustador. Esta certeza é um veio fundamental da cultura global. Medo da morte, que vem certa, e do que vem depois dela, se é que vem. O terror do futuro será atávico na única espécie que sabe que vai morrer?
A Matrix é uma alucinação consensual: um mundo virtual criado e habituado por máquinas. Nela passeiam as consciências anestesiadas dos seres humanos, enquanto seus corpos aprisionados no mundo real geram a energia que alimenta as máquinas.
A primeira Matrix foi uma utopia, mas falhou, porque os humanos se recusavam a aceitá-la e muitos morreram. A segunda Matrix refletia a história e cultura da humanidade. Era, portanto, um mundo imperfeito. E mesmo assim falhou. A solução do problema: uma nova Matrix, que desse aos humanos a escolha insconsciente de aceitá-la ou não. Só 1% rejeita a Matrix e acordam “no mundo real”, onde se integrarão à resistência ao domínio das máquinas. Mas são poucos, e o risco é pequeno e aceitável pelo sistema.
No final da trilogia, Matrix Revolutions, o herói Neo faz um acordo com as máquinas: aceitem uma trégua na guerra com os humanos, e Neo cuidará do inimigo que ameaça a sobrevivência de todos, o vírus renegado Smith. Neo enfrenta Smith, mas é impossível derrotá-lo. A única saída é assimilá-lo. Neo faz isso e se sacrifica. Sua morte revigora o mundo. Robôs-sentinela carregam seu corpo, como no funeral de um rei. A Matrix, mundo virtual imperfeito onde humanos adormecidos e subjugados pelo sistema pensam viver, foi recriada. Mas há um novo acordo: daqui para frente, todos os humanos que assim desejarem poderão se libertar do jugo das máquinas. Fim.
Matrix: nos enganamos ao pensar que a grande novidade nada trará de novo. Que a invenção do automóvel, da vacina, do celular, do caixa automático, bomba atômica e fast food, derivativos de crédito e bolsa família, iPad e banda larga - que tudo isso vai aparecer e as coisas vão permanecer fundamentalmente como são. Porque o autoengano? Porque intuímos intimamente que as coisas nunca mais serão as mesmas. E alguns de nós não só intuem, mas percebem claramente a mudança e se posicionam claramente contra ela. A estes vamos chamar de inimigos. Temos vários tipos de conservadores no século 21. A mocinha pseudoletrada que fantasia com uma utopia pastoril na loja de produtos orgânicos. O banqueiro que financia tanto ONG politicamente correta quanto o instituto de defesa da liberdade - e do capitalismo financeiro mais selvagem. O jornalista confiável, mais realista do que o rei que taxa qualquer opção fora do cardápio de “irresponsável”. O movimento popular que espanta a classe média, só para aliviar quando recebe uma gorjetinha governamental. Todo mundo que dá de ombros e se conforma porque “é assim mesmo”. A lista é longa.
1974: chapado de sódio pentatol após extrair um dente, Dick vê Deus. O nome dele é VALIS - Vast Active Living Inteligent System. Dick: a história congelou no primeiro século DC, e o Império Romano nunca terminou. Roma: império do aterialismo e da autoridade. Humanidade: escravizada, hipnotizada pela sedução dos bens materiais. Resistência: Gnósticos que secretamente planejam a derrubada do Império.
1994: O escritor de quadrinhos Grant Morrison é abduzido por alienígenas pentadimensionais no alto do BajaRat hotel, em Katmandu. Descreveu seu corpo sendo retalhado, destruído e reconstruído com um grau mais alto de conhecimento. Viu o total fluido do espaço-tempo. No dia seguinte, enche cadernos e cadernos tentando descrever o que viveu. Processo xamânico ativa geração de sincronicidades e ocorrências estranhas. Passará seis anos tentando fazer sentido da experiência por meio de um sigilo mágico, um feitiço em forma de narrativa gráfica. É a série em quadrinhos que acaba de iniciar: The Invisibles. Grant Morrison: “Praticamente não li Philip K. Dick... li VALIS.”
Não-conservador - ou progressista; ou revolucionário; as matizes são múltiplas - é quem está aberto para a mudança, um agente ativo que tenta perceber seus riscos e oportunidades com tanta clareza quanto possível. No século 21, é principalmente quem se articula com outros, como ele mesmo, para causar a mudança. Progresso: a ideia de que, como uma civilização, aprendemos com nossos errros e temos capacidade de fazer nosso futuro melhor do que nosso passado. Missão que desafia não só a nossa cultura, como nossa natureza. Porque temos infinitas histórias que nos alertam para o risco da criação, do progresso, da tecnologia. Prometeu deu o fogo - a primeira supertecnologia - aos homens, e Zeus o condenou à tortura eterna no Tártaro. Foi só colocar as asas criadas pelo pai que Ícaro quis voar até o sol, que derrete a cera que grudava as penas, e lá vai Ícaro se espatifar nas montanhas de Creta.
No romance fundador da ficção científica, Victor Von Frankenstein criou vida da morte, e a criatura se voltou contra ele. Todo cientista louco de almanaque é um alerta: não ouse tomar o lugar dos deuses porque eles o punirão.
1994 - 2000: The Invisibles são um grupo de rebeldes contra o super-sistema autoritário artificial criado por deuses alienígenas. Violento coquetel tecno-oculto de Robert Anton Wilson, magia moderna, pop e rock e super-heróis. Conclusão de Invisíveis: os inimigos somos nós.
Ao mesmo tempo e depois: Morrison escreve alucinante sequência de histórias da Liga da Justiça. Depois: New X-Men, “uma lição para os super-humanos que já andam entre nós”. Hoje: tornando Batman vital para o novo século. The Invisibles dissecado aqui.
1998: Os Wachowski, em Hollywood, buscam financiamento para Matrix: “vai ser isso, só que com atores de verdade”. Exibem a animação japonesa Ghost In The Shell, de Masamune Shirow - espécie de sequência não oficial dos temas e ambientes de Blade Runner.
Outubro de 2010: Ridley Scott, diretor de Blade Runner, anuncia que produzirá minissérie sobre o mais famoso livro de Philip K. Dick. É O Homem no Castelo Alto - em que o Eixo venceu a Segunda Guerra - ou talvez não.
Grant Morrison, 2009: “a equipe de Matrix ganhou a coleção de minha série em quadrinhos, The Invisibles. Os diretores disseram: "Façam o filme assim. Os irmãos Wachowski são criadores de quadrinhos e fãs do meu trabalho. Fui contatado antes do primeiro filme e convidado a escrever uma história para o site. Não é coincidência que tanto de Matrix tenha sido afanado de Invisibles, argumento, detalhes, imagens. Não tenho mais raiva de que eles tenham feito milhões com um xerox do meu trabalho. No final, fico feliz que eles tenham espalhado as ideias, mas fiquei desapontado com o segundo e terceiro filmes, que distorceram completamente os aspectos transcedentais Gnósticos que fizeram o filme original tão poderoso... eles tropeçaram em um teologia Católica chatíssima, o que prova que não tiveram a experiência de 'contato' que é o motor de Invisibles.”
Tron, O Legado: A megaempresa Encom fatura vendendo caro software proprietário, impossível de copiar. O sonho de seu fundador, Kevin Flynn, era usar a tecnologia para revolucionar - salvar? - o mundo. Flynn era um gênio hippie que fez sua primeira fortuna criando os primeiros videogames - Tron foi o big hit. Desapareceu há 20 anos. Deixou um filho, Sam, hoje com 27. Sam não aceita seu papel de maior acionista da Encom, cuja postura abomina; nem as responsabilidades da vida adulta. Já era órfão de mãe quando sofreu o abandono do pai, que não perdoa. Não sabe que Kevin Flynn está desde 1989 aprisionado na Grid, um mundo virtual populado por softwares - máquinas inteligentes. Flynn criou uma cópia de si mesmo, CLU, para administrar a Grid e fazer dela a sociedade perfeita. CLU a transformou em um estado totalitário, violento, intolerante com as diferenças. Criou um exército com o qual vai deixar a Grid e infectar toda a tecnologia da humanidade, dominando a terra.
Falta só a chave: descobrir como sair da Grid, informação que somente Flynn tem e está guardada em um disco de memória que ele carrega o tempo todo. Flynn vive escondido em um refúgio afastado do centro da Grid. Plano de CLU: atrair para a Grid o filho de Flynn, Sam. O amor de Flynn por Sam vai retirá-lo de seu esconderijo; juntos, e acompanhados de Quorra, uma misteriosa discípula de Flynn, eles tentarão fugir da Grid, mas serão capturados, e CLU dominará a Terra...
Seguem-se correrias até o final do filme. Flynn reabsorve CLU. A Grid é destruída/renovada para a sequência que virá - se (SE) o filme for um gigantesco sucesso.
Sam volta à Terra com uma namorada muito especial, e a missão de levar a Grid e a Encom ao seus potenciais. Fim. Fim desta história, que não queremos mais. Fim da década. Fora do cinema, outra história sobre mundos virtuais excita mais, importa mais: o caso Wikileaks.
James Cascio: “A tensão entre as mil maneiras em que nossas ferramentas - nossas tecnologias - nos afetam está no núcleo das discussões sobre o futuro. Elas nos enfraquecem? Destróem nossas memórias, como defendia Sócrates? Nossa abilidade de pensar em profundidade, como argumenta Nicholas Carr? Ou nossas ferramentas nos empoderam? Será que a tecnologia rouba nossa humanidade, ou é justamente ela que nos faz humanos?”
A imprensa tradicional está sempre a procura de um herói - ou vilão. O jornalismo econômico foca no empreendedor, no grande executivo. O esportivo, no técnico e no craque. O jornalismo cultural está a caça dos gênios, e o televisivo, do personagem que ilustra perfeitamente a história. A imprensa tradicional não sabe contar a história do Wikileaks senão listando as mazelas e virtudes de Julian Assange. Concentrar-se somente em Assange é incompleto, como é a maneira mais errada possível de explorar o caso Wikileaks.
A mídia tradicional implode em câmera lenta. Cerca de 20 mil jornalistas perderam suas vagas nos últimos dois anos nos Estados Unidos. Literalmente, bilhões de pessoas produzem e consomem conteúdo, e outras tantas empresas, e outros tantos artistas, e quase sempre de graça. A informação quer ser livre, diziam os ativistas da internet vinte anos atrás. E grátis, responde a meninada hoje.
A nova mídia é isso: todos nós. E esta nova mídia sabe que Assange é um ponto focal e uma bandeira, mas não é “o escolhido”. Os protagonistas do caso não são ele ou o militar que fazou os documentos. Os heróis - ou vilões, escolha seu lado - dessa aventura são os milhões que vocalizam seu apoio ao Wikileaks; os milhares que doam dinheiro e tempo para apoiar a causa; as centenas que criaram sites espelhos, para quando o site Wikileaks fosse impedido de operar, para que o fluxo de informações não paresse. Não sabemos quem são. Não importa. Sabemos quem somos e estamos por toda parte - ou este é o sonho do qual não quero acordar. Vi o parto destes moleques invisíveis que assimilam a tecnologia para sabotar a máquina. O orgulho e a inveja são grandes quando vejo multidões teclando: “Eu sou Spartacus!”
Lou Stathis sobre Philip K. Dick: “E, de repente, você é chocado com a percepção aterrorizante e repentina: a realidade não é o que parece... no universo de Dick, você não pode confiar em nada. Não só as figuras de autoridade mentiram para você - a própria realidade está mentindo para você. Mas por mais paranóica que seja, a visão de Dick não é desesperadora. Na decadência entrópica há sempre esperança; no absurdo encontramos humor e redenção nas abilidades super-humanas das pessoas comuns que lidam com circunstâncias extraordinárias. Nós podemos conseguir. Podemos não triunfar heroicamente (quem consegue uma coisa dessas?), mas, caramba, vamos sobreviver. Humanos sobreviverão por tanto tempo quanto conseguirem manter sua humanidade, diz Dick, e a medida da humanidade é sua capacidade de se importar.”
Eu me sinto jovem.
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