Tem um transexual no Big Brother Brasil. Ele não contou para os outros participantes que foi homem. Ele, porque continua com cromossomos XY, certo? Ou ela, porque decidiu ser mulher. Como devo me referir educadamente a um transexual? Problemas modernos para um heterossexual quarentão.
Bem, se os brothers não perceberam que ela foi macho, confirmam a teoria de que não entra lá ninguém com QI acima de 40. Está na cara, no gogó e no queixo, nos músculos e curvas absurdas de Ariadna. Traveco tem o corpo de mulher que mulher nenhuma tem - salvo essas popozudas marombeiras, destaques de escola de samba, mulher de pagodeiro.
A história é ligue-os-pontos: bicha brasileira da periferia se traveste, põe silicone, se prostitui, vai faturar na Europa traçando os italianos, faz a operação para mudar de sexo e volta para o Brasil. Tem milhares iguais, ou quase, por aí. Tudo miserável, claro, que gay rico não precisa fazer michê, e nunca soube de gay rico colocar peitões ou cortar o pinto, e você?
Do ponto de vista da audiência, a jogada é boa, e coloca mais fichas na mesa. O BBB começou fazendo pelo menos uma forcinha para levar para a casa gente representativa do Brasil - mais jovens e bonitos, sim, mas gente de lugares diferentes, profissões diferentes, caipira, babá, padeiro.
As únicas vezes que o BBB foi vencido por mulheres, foi por duas mulheres de verdade, Mara e Cida, BBB 4 e 6, me explicou agora minha consultora para assuntos BBB-zianos, e colega de redação, Fernanda. O resto só ganhou homem, inclusive um gay, Jean - o que sugere que quem mais assiste e vota é mulher e gay. Fernanda garante que Ariadna vai ganhar o BBB 11 - leia aqui.
Bem, se nas novelas temos cada vez mais gays - sempre bonitos e ricos - razoável termos várias lésbicas, homossexuais e um transexual na casa, certo? Mais espectadores cativos.
E BBB é voyeurismo, pornografia light para toda a família. Sexo vende, e discutir o relacionamento, o que rola direto no programa, também. Mais uma indicação de que o público é majoritariamente GLBT e mulher. Desconheço homem que assista fielmente ao BBB, mas deve haver, há de tudo neste mundo.
Naturalmente no BBB 11 não há macho normal, que ignore academia, porte uma pançoleta de cerveja e tenha profissão normal, tipo frentista ou bancário. Se houvesse, e houvesse chance de um desses catar uma das moças (ou traveca) debaixo do edredom, talvez o público masculino fosse maior. Teve um que namorou a Sabrina Sato, não? Dhomini. Pegou a japa e ainda faturou R$ 500 mil, diz aqui o Google. Depois virou cantor sertanejo. Orna.
Não assisti a nenhum BBB, fora minutos cá e lá, e, portanto, não sei do que estou falando, como de costume. Mas é o seguinte: ter um transexual na casa sem contar para os outros participantes reforça o preconceito contra os gays, em vez de atenuar.
É mais picante, circense, sacana? Ô. É mais lenha na fogueira, mais estímulo para esses idiotas que atacam os gays com lâmpada fluorescente? Com certeza. Acho bem mais preconceituoso que qualquer bobagenzinha supostamente homofóbica que aquele Dourado possa ter soltado ano passado.
Imagino que Ariadna não vá liberar seu segredo tão cedo. Suponho que a produção do programa controle seus passos neste sentido. Sabem que ela é a grande atração do show. Em breve estará aos amassos com algum fortão. Que, se sabe que ela é trans e transar mesmo assim, é um ser humano evoluidíssimo, sem preconceitos nem paúras, meus parabéns. Se pegar a moça sem saber que era moço, o Ibope vai bater lá no alto. De qualquer forma, será sacaneado pelo Brasil afora como o cara que foi enganado pelo traveco em rede nacional.
Hipocrisia brasileira, claro. Como dizia um camarada, homem que diz que não traçava Roberta Close não é homem... O momento em que o Brasil assumiu sua paixão pelos travestis foi quando Roberta ganhou a Playboy, lá se vão duas décadas. Era linda e elegante - uma Luiza Brunet com algo mais. Telma Lip, vi de perto, era de cair para trás. Ariadna, pelo que vi, é bem grossa, linha calçadão. Não faz meu tipo, digamos assim.
O que eu gostaria de ver, e se acontecer, assisto: um brother ou sister qualquer assumir que se interessa por Ariadna, mesmo sabendo que é transexual, e mandar ver. Isso seria civilizado. Hoje o BBB está como o típico homem brasileiro de anedota: maior machão quando tem mulher por perto, mulherzinha de madrugada com as Ariadnas da vida. E para o BBB 12, teremos um travesti ainda com seu dote? Ainda militando na prostituição?
O escritor americano Norman Mailer, que nos anos 60 se arriscou de político e sexólogo, cravou: sexo é mais quente quando parece pecaminoso. "Quente como o fogo do inferno!", dizia, para horror dos bicho-grilos, que defendiam o sexo como uma coisa "natural", amor livre, sem amarras, sem culpas.
Aceitar a sexualidade de cada um deveria, em 2011, ser comportamento corrente. Ainda que a predileção do outro te pareça horrível e doente (e contanto que o sexo seja consensual, naturalmente). Liberdade, sempre repito, é a liberdade de quem discorda de você. Mas Mailer, como sempre, estava mais certo que errado. Algumas coisas não mudam - ou mudam muito, muito devagar.
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