Começou a “temporada do tapete vermelho”. É uma pá de premiações do mundo do cinema, empilhadas em algumas semanas. Os mais importantes são o Golden Globes e o Oscar.
Há quem diga que quem ganha o Golden Globes tem grande chance de ganhar o Oscar. Há quem diga qualquer coisa.
Ter um filme entre finalistas de qualquer uma dessas premiações não é garantia de qualidade - frequentemente, é garantia de qualidade duvidosa. Mesmo assim o Brasil chora não ter chance de levar um Oscar de filme estrangeiro.
Se o filme é uma porcaria, não interessa -não torcer é impatriótico, como se estivéssemos na Copa do Mundo. Quanto fizermos um filme tão bom quanto o vencedor do ano passado - o argentino O Segredo dos Seus Olhos - podemos começar a reclamar.
Mas é uma incompreensão brasileira do que está em jogo. A “red carpet season” existe para vender roupa. É um desfile de modas, e como no mundo fashion, as modelos precisam caber nas roupas, criadas com Auschwitz em mente.
Então toca a tiazinha que manda na Royal Shakespeare Company, a starlet do seriadinho adolescente, e a estrela mala de comédias românticas entrarem no botox, no ácido retinóico, no puxa daqui e estica dali, no regime, no personal trainer. Tudo para entrar naquele vestido longo e brega, que ninguém jamais usaria em lugar nenhum do planeta - fora nos tapetes vermelhos de Hollywood. E aí é a competição que interessa. Quem estava mais chique? Quem estava mais brega? Quem estava magra, gorda, velha, doida? Tanto faz quem ganhou o prêmio.
O Brasil, que já exporta carne, minério, soja e Havaianas, precisa começar a exportar o que interessa no século 21, que é inteligência e sex-appeal. Sugiro que concentremos nossos esforços em emplacar astros e estrelas brasileiras em Hollywood, e que os envolvamos em andrajos desenhados por estilistas brasileiros, na hora de desfilarem seu charme e veneno nos escarlates carpetes ianques.
Precisamos também - atenção ministério da Cultura, da Comunicação, do Desenvolvimento - emplacar muitos jornalistas brasileiros por lá. Isso significa influenciar nos Golden Globes, que são dados pela Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood. São 93 pessoas. Claro que tem muito mais que 93 estrangeiros cobrindo a indústria do entretenimento em Los Angeles. Mas são estes ungidos que escolhem os vencedores.
Exceções de costume, trata-se de um bando de capachos. O primeiro jornalista estrangeiro que ousar fazer uma pergunta dura a um astro, ou dar um malho caprichado em uma superprodução, terá as portas imediatamente fechadas pelos grandes estúdios. A imprensa de Hollywood fez e faz parte da indústria de relações públicas de Hollywood. Mesmo que sejam jornalistas de outros países. Ou você acha que o correspondente do Japão, da Itália e do Brasil querem perder a bocada, e a entrada?
Este ano, ficou explícita a esculhambação. A Associação da Imprensa Estrangeira indicou duas bombas, Burlesque e O Turista, para a categoria Melhor Musical ou Comédia. Ambos espetaculares fracassos de crítica e público. Estariam os correspondentes loucos? Não. É que a Sony, distribuidora de Burlesque, levou uma turma de votantes para uma viagem a Las Vegas com tudo pago, que culminava com um show de Cher, a estrela de... Burlesque. Os coleguinhas se vendem por um show da Cher. Já vi pior aqui no Brasil mesmo. Se o governo brasileiro quiser uma lista de jornalistas brasileiros extremamente capachildos e subservientes para emplacarmos Hollywood, é só me ligar.
Perto dos Golden Globes, o sistema de votação do Oscar parece até racional. Só de longe. Como muitas coisas nos Estados Unidos, o sistema do Oscar existe para para manter as coisas exatamente como são, dando a aparência de que tudo é resultado de um processo extremamente democrático. Aí, trata-se de exportarmos em grande número produtores, diretores, roteiristas brasileiros - difícil. Podemos compensar exportando nossos astros, que são tão maus atores quanto os americanos e mais lindos! Sai da novela e vai direto pra aula de inglês, bonitão.
Mas essa história eu já contei um ano atrás, às vésperas do Oscar do ano passado - aqui.
Veja mais:
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7





