Trezentos e quarenta reais. Foi o preço dos livros que a escola exigiu, mais uns trinta reais de cadernos, e o resto de lápis e tal deu para aproveitar do ano passado. Meu filho tem sete anos, está no segundo ano. Um amigo diz que tive sorte, a conta dele saiu mais de seiscentos. Uma amiga diz que tive muita sorte: o material completo para o filho dela, treze anos, saiu por R$ 1500,00.
Dei uma olhada nos livros. Parecem bem bolados. Não me alivia. O esquema atual de compra de livros escolares é absurdo e uma roubalheira e difícil escapar. Você vai fazer o quê, se recusar a comprar os livros que sua escola exige?
A questão é que as escolas montam isso de uma maneira que isola os pais. Elas escolhem os livros, e têm que ser aqueles. Elas só informam quais os livros no início do ano, duas ou três semanas antes das aulas começarem. Elas fazem com que você vá até as livrarias indicadas e compre lá.
Seria muito simples comprar de uma vez todos os livros para as 70 ou 80 crianças que estão no segundo ano na mesma escola com o Tomás. Seria muito simples comprar diretamente da editora, o que faria os custos caírem imediatamente pela metade (o livro que você paga trinta reais na livraria, ela pagou quinze para a editora, na média).
Seria muito simples negociar com a editora para reduzir os preços ainda mais - ora, se você está comprando um volume grande, tem mais poder de barganha. Fui editor de livros durante anos. Sei como funciona. E é como o governo faz ao comprar livros escolares - encomenda milhões, paga centavos.
Minha tentação é arregaçar as mangas e enfiar uma chave nessa engrenagem. Falar com os pais dos colegas do Tomás. Melhor, falar com todos os pais do Brasil. Pegar um desses sites de compras coletivas e botar na jogada, agora a compra é massiva. E por aí vai.
Na prática? Não vou fazer nada. Até porque, no fundo, sei que é muito difícil desatar a amarração entre professor, escola, livraria e editora. Mais no fundo ainda, sei que o verdadeiro problema é que o Brasil é um dos poucos países do mundo em que todo mundo se sente na obrigação de pagar para o filho estudar.
Quando leio que o Brasil não é mais subdesenvolvido, sempre penso: ah é? Quando tivermos escolas razoáveis e gratuitas, da primeira infância ao mestrado, vou me considerar vivendo no primeiro mundo.
O verdadeiro preço que pagamos não é só pelos livros e cadernos, ou a mensalidade, ou os cursos paralelos, inglês etc. O verdadeiro preço que todos os brasileiros pagam pela nossa educação cara e ruim (pública e privada) é a ignorância, a pobreza, a violência.
No fundo, tenho um pouco de vergonha de pagar para o meu filho estudar, sendo que tantas crianças estudam sem pagar. Mas também não vou arriscar, vou? Se as melhores escolas do Brasil são tão fracas para os padrões mundiais, que dirá as piores. Pago sem reclamar a mensalidade da típica escola classe média paulistana e torço pelo melhor.
Me conformo um pouco porque em poucos anos, essa conversa toda de livros escolares vai se acabar. Os tablets vieram para ficar. Em cinco anos, o típico tablet vai ser tão poderoso quanto um iPad de hoje, e dez vezes mais barato. Digamos uns setenta reais.
Se produzidos em massa, de encomenda para governos e escolas, pode cair muito, e cada vez mais a cada ano. Será simplesmente antieconômico, para não dizer antiecológico, continuar imprimindo milhões de livros para depois jogar fora, se um tablet pode conter centenas, milhares de livros digitais, permitindo interatividade e tudo mais.
As crianças vão continuar curtindo livros? Sim, se eles forem muito divertidos, meio com pinta de brinquedo, como tantos que já existem hoje (e caríssimos). Não, se for só para ler. As crianças vão continuar usando lápis, borracha e caderno nas escolas? Sim, mas cada vez menos. De todas as coisas inúteis que uma criança precisa aprender, caligrafia dever ser a número um.
O quanto você escreve à mão por dia? O quanto você digita? O computador é a segunda mais importante ferramenta de ensino que uma criança pode ter. A primeira é o professor. Se eu fosse presidente da República, limpava a mesa e me concentrava no que interessa: salário, formação e cobrança para professor, e tablets pra toda a meninada.
Mas sou só mais um pai ranzinza...
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