Tem uns vinte anos ou mais. A televisão paga começou a ficar acessível no Brasil. Fui um dos primeiros da fila. Que coisa mágica, escapar da ditadura dos sete canais. E era 24 horas! Maravilha curativa para as madrugadas insones.

Eu via muita televisão. Morei sozinho a partir dos 17 anos. A TV era minha companheirona, Cultura, SBT, Globo, Record, Manchete, Gazeta e Bandeirantes, na ordem dos canais. Jantava vendo TV, acordava vendo TV, deixava a TV ligada quando conversava com a namorada, abaixava o som - não muito - quando tinha uma renca de amigos em casa, bebendo cerveja, comendo pizza, fumando sem parar, discutindo em altos brados - o quê?

Não importa. Dias felizes.

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E então chegou a TV paga. Uns canais de filmes, um de variedades, outro de desenho e CNN. No início da Guerra do Golfo, 2 de agosto de 1990, estava com um camarada em casa, as bombas começaram a cair, ele - vamos ligar pra Ryad? Tenta daqui, tenta dali, daqui a pouco estava ele falando com um peão do outro lado do mundo, que comentava os barulhos que vinham do outro lado da cidade. Bem melhor repórter do que eu. E nós a dois quarteirões da Avenida Paulista, vendo aquele videogame noturno, os americanos bombardeando o Iraque.

Um dia tive o insight: sabe o que ia dar certo? Um canal que só passasse novela antiga. Tanta novela que já se fez e está lá mofando! Tem que fazer como os americanos, faturar com as velharias. Os anos se passaram.

Nada aconteceu. Concluí que minha ideia brilhante não era tão genial assim (o que, infelizmente, é bem comum).

Hoje são zilhões de canais, que uso pouquíssimo, e mais não sei quantos em HD - sem nem falar da variedade infinita de vídeo que encontramos na internet. É de atordoar. E do que meus contemporâneos falam sem parar?

Do canal Viva, que reprisa novelas e alguns velhos e novos programas da Globo, tipo Sítio do Pica-pau Amarelo e Malhação, e Vídeo Show e Ana Maria Braga.

Existe faz um tempinho, mas agora bombou de verdade com Vale Tudo. É a novela marco de quem tem quarenta e poucos anos. Foi a primeira novela das oito que tratava de um Brasil muito verdadeiro, que tocava em temas políticos com uma pegada contemporânea, sem deixar de ser folhetim. Gal Costa cantava Cazuza na abertura. Não a assisti na época - não curto novela, demora muito - mas não escapei dos debates apaixonados, já na redação da Folha. Meu primeiro emprego, pensei que ia conviver com um bando de cabeções na Ilustrada, a turma lá ligadona na Odete Roitman.

odete roitman Novos tempos, velhas novelas

É nostalgia? Vai ver. Talvez menos nostalgia das novelas de antigamente, e mais saudade de um tempo em que todos falávamos das mesmas coisas, todos tínhamos referências e inimigos em comum; quando nossa atenção era menos pulverizada, e as maravilhas tecnológicas chegavam no pinga-pinga, não em maremotos.

Agora vi que o Viva vai reprisar a minissérie Sex-Appeal. Nunca tinha ouvido falar, mas considerando que vai passar à meia-noite e vendo as fotos de 1993 de Luana Piovani,  Camila Pitanga, Danielle Winitz e, puxa, Carolina Dieckmann, arrisca eu me converter.

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