O essencial é invisível, disse Antoine de Saint-Exupéry. Concordo e dou nome: eletricidade. Por impensável que seja nossa vida sem água encanada, esgoto ou recolhimento de lixo, energia elétrica é a última coisa de que eu abriria mão. Impossível viver sem todo o resto, embora tantos vivam sem. Mas se sua casa não tem eletricidade, também não terá luz, computador, TV, geladeira, lavadora, telefone e sei lá mais quantas outras coisas.
Quantas pessoas você acha que vivem sem eletricidade? Mais que 1,2 bilhão, um quinto da humanidade. A maioria, adivinha, na África. Os países em pior situação são o Quênia, onde 85% da população vive sem eletricidade, e Ruanda, 95%. Na Ásia, o campeão é o Afeganistão, onde os Estados Unidos lutam uma guerra sem chance de vitória: 86% dos afegãos vivem sem eletricidade. Nas Américas, o Haiti é o primeiro: 62%.
Nos mandatos de Lula, o projeto Luz para Todos passou meio batido da imprensa. Parece surreal ser necessário levar geradores de caminhão para grotões nos confins do Brasil. Vai ver é muito mais caro do que seria necessário, que sei eu, mas sempre achei louvável. Espero que seja expandido. Já existem sisteminhas chineses ultrabaratos de geração de eletricidade via painel de energia solar, na faixa de US$ 10 (R$ 16,7). Você põe no telhado da sua casa, e ele conecta a um abajur e ao carregador de celular. Pagando uns US$ 100 (R$ 167,2), dá pra funcionar TV e geladeira.
Dinheiro de pinga, mas para parte imensa da humanidade, impagável.
O capitalismo é excelente para a produção do supérfluo e menos eficiente para garantir o fundamental; naturalmente, o que é supérfluo para um é oxigênio para outro. Até penso que vivo de maneira simples, com a certeza de que minha conta mensal de quadrinhos escandalizaria muita gente.
Não sou santo e não me mortifico por viver com meus prazeres (como faziam os professores comunistas e chatos da minha faculdade). Culpa tem hora e tem que ter alvo certo.
Quando penso nas fortunas ilícitas dos tantos Mubaraks que drenam a riqueza que é de todos - no Egito, no Brasil, em todo lugar - e no bilhão e tanto de pessoas que vivem na escuridão, recordo as palavras do africano Agostinho de Hipona, que meu pai me ensinou: o supérfluo dos ricos é propriedade dos pobres.
Veja mais:
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7





