Bravura Indômita, que concorre a dez Oscars esta semana, é uma refilmagem cena por cena de Bravura Indômita, um dos últimos faroestes de John Wayne, de 1969. As diferenças são o finalzinho e o tom. O original é ensolarado, a cópia glacial; o antigo é uma aventura dramática, o novo um drama repleto de peripécias. No primeiro dá para rir, no segundo arrisca alguém chorar.
Você dificilmente descobriria o quanto os filmes são idênticos isso lendo as dezenas, centenas de artigos elogiosos sobre o novo Bravura Indômita.
Nem nos brasileiros, nem nos gringos. Os diretores-roteiristas Joel e Ethan Coen repetem em toda entrevista que não refilmaram nada, adaptaram o livro original de Charles Fortis, True Grit. E toca macaquear a informação oficial dos irmãos. Eu, bem, não tenho tempo ou energia para ler o livro, mas fui lá rever o velho western. Assisti garoto, numa Sessão Coruja da vida; só me lembrava de John Wayne fanfarrão e gozado, com as réguas nos dentes, cavalgando e mandando bala, com o Colt em uma mão e a Winchester na outra. E do nome, Rooster Cogburn. Rooster quer dizer galo de briga. O nome diz o que o personagem é.
Um e outro filmes merecem elogios. É uma boa história, uma espécie de ideal platônico de faroeste, com o mocinho irascível, a garota valente, o delegado relutante, e bandidos feiosos e malvados, mas bem humanos. O novo não é "realista", muito menos "mais realista" que o original. Pelo contrário. No final do velho Bravura Indômita, John Wayne saltava do oeste para a história, vivo e brigão. No novo, Jeff Bridges troca as agruras da história pela farsa; enterra o oeste mítico em um parque de diversões.
O novo Bravura Indômita tem autor: Steven Spielberg. É o mago das bilheterias que assina a produção. Enquadrou os Coen, que devem estar bem cansados de empilhar prêmios em casa e fracassos de bilheteria. É o filme mais certinho da dupla, o único sem humor nem idiossincrasias.
Poderia ter sido dirigido por qualquer um. Pela falta de autoria, e de algo a dizer diferente do original, é totalmente supérfluo na obra de Spielberg e dos Coen. Na penúria que vivem os fãs de western neste século politicamente correto, sustenta como um sangrento filé com batatas.
O original também não era obra autoral. Seu diretor, Henry Hathaway, foi
profissional experiente e correto, sem rasgos de brilhantismo. Pesa mais o nome do produtor Hal Wallis, dezesseis Oscars de melhor filme, Casablanca e O Falcão Maltês no currículo. E, claro, de John Wayne.
Dizer que um filme é "de" esse e aquele diretor é cacoete e ignorância.
Alguns filmes levam a marca do diretor, outros do produtor, outros do roteirista, ou do protagonista; uns desta ou daquela combinação. Bravura Indômita era mais um de tantos filmes de John Wayne, desses sem John Ford nem Howard Hawks na direção.
Ninguém sabe quem foi o melhor astro de filme de guerra, nem quem foi o comediante mais engraçado, a estrela mais charmosa. Quando se trata do astro que é sinônimo de faroeste, o nome é John Wayne e não tem para ninguém.
Agora toca rever meus favoritos, Rio Bravo, El Dorado, Hatari, The Quiet Man, Jet Pilot. E o não tão favorito Rooster Cogburn, continuação de Bravura Indômita, que botou Wayne em cena com gigante à sua altura, Katharine Hepburn. Lembro que é melancólico; menos que The Shootist, seu último filme, em que interpreta um velho pistoleiro canceroso.
"Duke” Wayne morreria disso, pouco depois, 1979; já resistia ao câncer há muito tempo, e tirou um pulmão em 1964.
Pelo menos deu tempo de faturar seu único Oscar de melhor ator por Bravura Indômita, o que explicou no estilão característico: "se soubesse, teria colocado um tapa-olho 35 anos atrás."
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