Choradeira intensa sobre o fim do cine Belas Artes. Absurdo, desrespeito à cultura de São Paulo, à história etc. As duas últimas vezes que fui assistir um filme lá, estava às traças. Onde estavam então as viúvas que hoje choram? Tela e som mais ou menos, cadeira e pipoca ruins não ajudavam.
O Belas Artes era, na teoria, um cinema para quem é apaixonado por cinema, dedicado a exibir filmes com alguma ambição estética, fora do circuito mais comercial. Vinte anos atrás, só tinha a companhia do Cinesesc e do Cinearte. Hoje tem concorrência das muitas salas do Espaço Unibanco e mais algumas outras, mas também de zilhões de DVDs baratinhos, e, claro, da internet, onde basta uma busca e a maior raridade da sétima arte está lá, lindinha, para você assistir.
Alguém vai deixar de assistir o filme que quer, só porque o Belas Artes fechou? Não, a disponibilidade é maior que nunca. Mas mais importante: o Belas Artes era um lançador de novos nomes? Você via filmes completamente estranhos, bizarros, ousados, fora do circuito dos festivais europeus no Belas Artes? Pontualmente. A regra era exibir o filminho indie americano europeu descolado do momento, ou obras de autores já devidamente consagrados.
Um cinema tem que ter uma razão de ser. O multiplex com nove salas no shopping de bairro está repleto de ótimas razões pra existir. O Belas Artes perdeu sua função faz muito tempo. Se você precisa de uma prova, basta conferir a programação da última noite do Belas Artes, hoje. Está aqui:
20h20 - "Queimada!", de Gillo Pontecorvo (sala Mario de Andrade) 20h30 - "O Leopardo", de Luchino Visconti (sala Oscar Niemeyer) 21h - "A Doce Vida", de Federico Fellini (sala Villa-Lobos) 21h20 - "O Águia", de Clarence Brown (sala Carmen Miranda) 21h30 - "No Tempo do Onça", de Charles Riesner (sala Cândido Portinari) 21h30 - "O Joelho de Claire", de Eric Rohmer (sala Aleijadinho)
Vi os três primeiros, pelo menos três vezes cada. Nenhum no cinema, todos em casa. Adoraria ver qualquer um na telona, mas na prática, não vou sair de casa, pegar trânsito, fila, gastar grana etc. para ver o que já vi e sei de cor; e sei lá a qualidade das cópias. Rohmer não entendo, os outros não conheço, o que seria boa razão para conferir os primeiros quinze minutos, mas não para investir duas horas. Quer dizer: é uma programação interessante, mas morna. Nada que eletrize ninguém. E isso no último dia do Belas Artes.
Tenho certeza que o diretor do Belas Artes, André Sturm, deve ter enfrentado desafios e dificuldades que nem imaginamos. Não vejo o xará faz muitos anos, e mantenho o respeito à distância. Deve faltar infra, grana, tudo. Mas ele sabe que o mundo mudou; imagine que, como a maioria de nós, deve ver mais filmes em casa do que em salas de cinema. Se é para o Belas Artes seguir como está, morrendo aos poucos, empurrando com a barriga, melhor dar o tiro de misericórdia, e que se transforme a histórica esquina em um estacionamento, shopping, essas coisas. São Paulo odeia seu passado, qualquer passado.
O que deveria ser feito: o prédio deveria ser tombado. O Belas Artes deveria ser reformado, e transformado em um Centro Cultural da pesada, um verdadeiro palácio do cinema de arte. Arte mesmo, não arte com carimbo de arte; arte provocativa, transgressora, ambiciosa; exibindo filmes que nenhum outro lugar exibiria; colocando em pauta novos nomes e novas tendências; vendendo os melhores filmes e livros e tal para os cinéfilos mais intransigentes.
Seria um novo Belas Artes. Um cinema como o Brasil merece e como não há em canto algum do país. Um cinema completamente desvinculado da necessidade do lucro financeiro, e totalmente obcecado pela geração de valor estético, de disseminação do melhor cinema desconhecido da maiorias, fosse novo, fosse velho. Um Belas Artes assim seria, inclusive, um contraponto conceitual importante ao modelinho careta que impera no cinema nacional, captação de dinheiro público, comedinhas medíocres, atriz de novela etc.
Gostou? Eu gostaria. E quem vai pagar a conta? Bem, o Ministério da Cultura liberou a captação de R$ 1,3 milhão para Maria Bethania fazer um blog de poesia com Andrucha Waddington... se tem dinheiro para uma bobagem dessas, precisa haver para refundarmos o Belas Artes.
Ainda dá tempo...
Veja mais:
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7




