Nos últimos anos, todos os grandes jornais brasileiros passaram por reformas importantes e insuficientes, porque não revolucionaram o fundamental: o método de produção. Embora praticamente todas as grandes redações tenham unificado as operações do jornal impresso com as da versão digital do jornal, ninguém conseguiu fazer um ser novo, um mutante. Os jornais continuam aberrações, cérberos, monstros de várias cabeças, nenhuma conversando com a outra - impresso, web, mobile, vídeo, etc.

Eu me formei em jornal, Folha 1988-1990. Foi minha grande e primeira escola. Depois, enveredei pra revista, e livro, e internet e sei lá mais o quê e aqui estou. Nunca mais trabalhei para jornal, só de colaborador. Escrevi com alguma frequência para os dois grandes de São Paulo - recentemente, mais para o Estadão que para a Folha, graças aos gentis camaradas do caderno Aliás. Onde me convidarem, escrevo com prazer. Sou contratado para fazer o melhor blog que conseguir aqui no R7, claro, com os resultados pífios que você já conhece.

Enfim: trabalhei pouco em jornal e revista, mas estou na estrada faz tempo, e tenho amigo pra todo canto em tudo que é redação deste país. Um tempo atrás, uma amiga querida que trabalha em um grande jornal que passava por mudanças me encomendou: você, que está de fora do mundo do jornal mas acompanha o que acontece na internet, na mídia e tal - não quer ler o jornal uns dias e depois me dizer o que achou?

Em vez de dizer, escrevi o bilhetinho abaixo. Alguns nomes foram trocados /apagados para proteger os inocentes...

Olá querida,

como encomendaste, acompanhei o jornal por uma semana. Você encomendou meu pitaco de ombudsman, dou, em off, naturalmente, e perdão pelo rabisco tosco. As mudanças são cosméticas. Gostei de umas coisas, menos de outras. Meu pai idem. Não é o ponto.

Elencar quais funcionam mais, ou melhor, para que público não me cabe.  Está longe de ser o que um jornal deveria ser a esta altura do campeonato. Como todos os outros. Eu acho que sei a razão. O ponto nevrálgico é o processo de produção. Hoje, embora a redação seja una, as edições online e offline do jornal se conversam pouquíssimo. Parece que cada um está fazendo o seu, com somente as ligações inescapáveis.
É uma espinha bífida...

O método deveria ser algo meio assim:

- quando está se desenhando a pauta do dia, os editores online deveriam ir selecionando quais os conteúdos associados àquela pauta serão publicados online.

- desta maneira, o próprio jornal já sairia com os devidos links de hipertexto, caixinhas, fichas: veja todas fotos do filme. Veja o vídeo do jogo. Ouça a voz do escritor.  Veja o mapa onde aconteceu o derramamento de petróleo, fotos dos animais mortos, entrevista do Obama, etc.

- na outra ponta, conforme a pauta do online vai sendo feita e refeita, alguns ganchos poderiam ir ganhando tração, e alguns temas poderiam ganhar links para a edição do jornal no dia seguinte - leia a análise do colunista tal, leia o furo exclusivo do repórter zé das couves sobre aquilo.

- principalmente, a edição impressa deveria conter os anseios do leitor, seus comentários, seu feedback, o que rolou no Twitter sobre o assunto; e mais, naturalmente, uma seleção dos melhores links sobre as devidas coisas (não é lista burra; não é coisa que você encontra na primeira página de busca do Google; é filtro, edição, ou para usar a palavra da moda, curadoria).

Do jeito que está, os leitores continuam contidos na seção de cartas do jornal. Isso é impensável. Os leitores de conteúdo são produtores de conteúdo. Eu tenho uns 40 mil leitores mensais no blog, quase 6000 seguidores no Twitter, e mais uns 20 a cada dia. Todos escrevem, palpitam, criticam, fazem fotos, desenhos, namoram online, arrumam pau, discutem política, etc.

Este leão, naturalmente, o jornal terá que matar todos os dias, mas é preciso a) reconhecer que o leão existe e b) criar guerreiros e armas capazes de matar leão, e isso tem que ser feito simultaneamente. Se a redação não tiver uma massa crítica de pessoas que compreendam essa realidade profundamente, ela não existirá para o jornal. Em vez de um leão - feroz, forte, com dentes afiados, mas abatível - o inimigo se torna um imortal monstro de fumaça.

Para fazer do jornal da geração dos nossos pais um jornal relevante para a nossa juventude, sobre a qual foi construído o jornal que hoje está nas bancas brasileiras (e mesmo os grandes portais, quase todos criados e gerenciados por jornalistas que vieram da mídia impressa), foi necessário um banho de sangue. Jogar fora uma velha maneira de fazer jornal, escancarar as portas, encher as redações de moleques doidos, mandar um monte de gente embora etc. Não sei como vocês farão essa nova grande mudança. Mas se você não fizer alguém fará. Aliás, já estão fazendo.

Uma possibilidade meio doida: pegar uma pessoa com a cabeça 100% dentro de Online, de mídias sociais, com feeling de hard news e de pop, e com traquejo de fechamento, para ocupar uma nova função, um editor-chefe de online, que comande toda a equipe online do jornal (em paralelo com os editores dos cadernos; dupla subordinação, mas o cara tem que ter a palavra final) e responda diretamente para o diretor geral do jornal (que também tem que ser mais para online do que offline - afinal, qualquer jornal grande tem mais leitores em versão digital do que no papel!). Este editor online tem que ser brigão também, couraça de aço à prova de mau olhado, porque a resistência de qualquer redação ao novo mundo não é fácil. Mas tem que ser um líder e um sedutor, pra chavecar os resistentes, porque só na porrada não vai. Cadê o figura? Achar este cara é missão impossível mas indispensável - e só o primeiro passo.

E chega de me meter em assuntos alheios.

Bom trabalho e divirta-se...

Bjs

André

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