2006040800 montaigne Vamos conversar sobre jornalismo Cultural?

A definição perfeita da missão da Crítica é “separar o bom do ótimo”. Jornalismo Cultural é outra coisa, mais e menos. Menos porque ofício técnico, ao alcance de qualquer um, e labuta cotidiana, apressada, panorâmica. Mais porque é quente, instantâneo, com mira precisa e alvos claros. A Crítica se grafa com maiúsculas, jornalismo sempre com caixa baixa.

A Crítica nasceu com a reflexão escrita, escolha o marco fundador - Grécia, 2300 anos atrás? Jornalismo Cultural, bem, eu, fino, elejo Michel de Montaigne. Li há muitos anos uma seleta de seus ensaios e concluí que foi ali que nasceu o que eu faço, nenhuma comparação de mérito, fazendo o favor.

Michel, filho de pai católico e mãe judia, em tempos de conflitos religiosos extremados - Henrique de Navarra, Rainha Margô, Catarina de Médici, Noite de São Bartolomeu, localizou? -  escrevia por paixão. Não existia esse negócio de escreve profissionalmente no século 16. Michel matutava e escrevia trancado na torrezinha do seu quintal, cercado de livros. Se você considerar que Gutemberg debutara sua prensa cento e poucos anos atrás, é muita coisa.

A herança permitiu que levasse dez anos a parir os Ensaios, que publicou aos 38 anos. Se o processo sugere literatura, o resultado é inquestionavelmente jornalístico. É uma longa conversa com seu melhor amigo, Etienne de La Boétie, morto jovem. Montaigne cozinhava um boulaibasse bem temperado: investigava seu tema, naturalmente, mas deixava claro o turvo processo de seu pensamento, emendando anedotas, comentários, cutucadas nas eternas mazelas dos homens e das instituições que eles criam. Tudo com pitadas liberais de ceticismo e generosas de autocrítica, que, como dizia meu ídolo Paulo Francis, só é honesta quando impiedosa. Não perdoava ninguém: “Reis e Filósofos defecam, assim como Damas”; ou "Mesmo ocupando o mais alto trono do mundo, ainda sentamos sobre nossa própria bunda”.

Montaigne demoliu as imponentes e inquestionáveis catedrais góticas do pensamento medieval com uma frase: “Que Sei Eu?”. Se antes o recurso à citação de fontes antigas de autoridade resultava em dogma, depois da Renascença se abriram as portas para o questionamento amplo e irrestrito, o que foi resultou no método científico, na democracia, e nesta bagunça que vemos aí fora.

Encontrar as raízes de uma atividade tão pedestre quanto o jornalismo cultural nas glórias da Renascença parece um pouco com comprar título de comendador. Mas tudo tem um começo, e nosso começo foi lá em Bordeaux. Depois veio tudo, e principalmente o sensacionalismo dos folhetins do século 19, e a ascenção e ocaso das grandes utopias do século 20, e o relativismo cultural dominante nas últimas décadas e principalmente do cenário pós-internet.

Se hoje todos somos “produtores de conteúdo”, nos blogs e redes sociais e tal, poucos somos produtores de jornalismo. É profissão, não hobby. Exige respeito a métodos de apuração, submissão às fontes primárias de informação, execução do texto de maneira integrada e sedutora, e outras mumunhas que se aprende em seis meses ou nunca mais na vida, independente de faculdades ou douturados.

E você lá tem autoridade para ditar regras sobre o que é ou não jornalismo cultural, ô metido? Bem, sim, porque me concedo, e os cabelos brancos impressionam os desavisados. E não é assim agora, cada um publica o que quer e ouve o que não quer? Mundo moderno: impacta o que impacta, e importa cada vez menos onde foi publicado. Minha impressão é que as únicas pessoas que valorizam jornalistas culturais com empregos tradicionais são estudantes de jornalismo... e fazem bem, porque querem um emprego no futuro, não é? Não vão conseguir posando de modernos o dia todo no Facebook. Precisa, entre outras coisas, ler livros, inclusive os difíceis, inclusive os antigos, até o final, pouco importa se em meio físico ou virtual.

Hoje conversaremos sobre jornalismo cultural, e você está convidado (a)  para o papo. O debate - troca de figurinhas entre velhas comadres, melhor dizendo - acontece em uma livraria. Bons eflúvios. Quem sabe o espírito do velho Michel não nos ilumina? Caraminholo: será que em dez ou vinte anos existirão os dois, jornalismo cultural e livrarias? O tempo dirá, e espero chegar lá para poder comentar falência ou sobrevivência de duas instituições que amo, com verve e leitores, espero. Figa. Um país se faz com homens e livros, dizia meu outro ídolo, Monteiro Lobato, e quem me deu minha coleção de Lobato quando fiz sete anos que assuma sua parte de responsabilidade agora - feliz aniversário, pai.

1ª Semana de Jornalismo Cultural
Tema: As novas e velhas maneiras de produzir informação
Palestrantes: Sérgio Miguez (mediador), André Forastieri, Marcelo Costa, Pablo Miyazawa e Letícia Zioni.
Onde e quando: Livraria Cultura do Bourbon Shopping, R. Turiassu, 2100, Perdizes. Hoje, 23/3, às 19h.
Mais informações: http://ja.lc/1scjc

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