A carreira de Elizabeth Taylor durou exatos 25 anos. De 1942, estrela mirim estreante aos dez anos, a 1967, quando rodou pela última vez um filme digno de nota, Os Comediantes. Viveu mais 43 anos - para nada?
Para nada, do ponto de vista artístico, mas sempre famosa e sempre querida. Elizabeth, Liz, cresceu e envelheceu com uma geração. Foi mais que imensamente querida e desejada. Foi a primeira celebridade.
Antes houve famosos, atores, líderes, esportistas. Deles só se sabia o que era permitido saber. Liz estreou menina no tempo em que os estúdios dominavam tudo em Hollywood e os atores, na frase clássica de Hitchcock, eram gado. Era linda e fofa. Aos 19 anos era ainda mais linda e quente como o inferno.
Soube fazer a transição de atriz infantil para estrela adulta, e mais importante, para atriz completa. Tinha 19 anos quando fez Um Lugar ao Sol e 24 quando estrelou Giant. Depois disso sua filmografia, repleta de filmecos peso-leve no início da carreira, pendeu para os dramas barra-pesada, e seus papéis foram se tornando mais densos, mais provocativos, mais - carnais.
Liz Taylor exalava sexo, e sexo adulto; sabia ser terna, mas sabia onde tinha o nariz. Olhava os homens olho no olho. Era o exato oposto das poses sexy bilu-bilu de Marilyn Monroe e seguidoras. Marilyn era mulher-objeto. Liz, encrenca irresistível.
Sua trajetória artística é inseparável de sua acidentada vida pessoal; mais que isso, uma alimentou a outra e uma e outra se misturaram no imaginário do público. Não sei de caso anterior semelhante. O momento era propício. A derrocada do sistema de estúdios em Hollywood chutou as portas das intimidades dos famosos.
Liz casou aos 20 anos, teve o primeiro filho e se separou aos 21; Nicky Hilton era milionário, herdeiro da fortuna dos hotéis. Se casou no ano seguinte com Michael Wilding, vinte anos mais velho.
Separou depois de cinco anos e se casou imediatamente com Michael Todd, que morreu depois de um ano. O melhor amigo de Todd a consolou - Eddie Fisher, que largou a mulher Debbie Reynolds, por Liz; as duas eram boas amigas.
Tudo isso antes de Liz se casar com Richard Burton - a primeira de duas vezes, acompanhadas de dois divórcios. E foi o famoso Liz and Dick Show que fez por quinze anos a fama e infâmia do casal nas colunas de fofocas mundo afora. Os dois se amavam e se estranhavam como se estivessem em Muito Barulho Por Nada.
Estrelaram juntos cinco filmes; beberam, brigaram e fizeram as pazes nos quatro cantos do planeta; colecionaram constrangimentos e diamantes. Sempre sob vigilância dos paparazzi, sempre expostos aos olhos de um público sequioso e submisso.
Daria ainda tempo de Liz casar mais duas vezes, com um senador e um caminhoneiro. De envelhecer graciosamente, por um curto tempo, e medonhamente na última década de sua vida. E de levantar uma fortuna para campanhas contra a Aids, causa que abraçou com mais força que ninguém.
As mulheres quentes, insolentes e complicadas que Liz viveu na tela sugeriam os descaminhos de sua vida pessoal; seus romances turbulentos emprestavam densidade às feras que vivia na tela.
As interpretações estão lá - Giant, Gata em Teto de Zinco Quente, Cleópatra, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?. Mas perdem densidade e textura, vistas por um público moderno que não conviveu com a persona pública de Liz.
Cresci vendo Liz e Dick toda semana na revista Manchete - eram o casal mais famoso e ruidoso do mundo. Viviam às turras e aos beijos, o anti-Angelina Jolie/Brad Pitt. Era um casal que tinha tudo pra dar errado, e deu, e tudo para ser um romance inesquecível, e foi, para quem lembra.
Ninguém viveu tão intensamente em público antes dela. Para o bem e o mal, seu e nosso, Elizabeth Taylor foi célebre.
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