bolsonaro Sobre Bolsonaro, Preta Gil e os limites do Twitter

O Bolsonaro é um escroto, sim. Mas é ilegal ser pessoalmente contra casar com negro, ou transar com o mesmo sexo? Desconfio que não. Liberdade é a de quem discorda da gente. Ainda que seja o Bolsonaro.

Tem um monte de deputado que é a favor do aborto, por exemplo, que é ilegal. E aí? Devem perder os mandatos também?

Não é por que é legal que é moral. Ou bonito. Ou aceitável. Mas cada um tem direito de dizer o que quer e aceitar as consequências.

Racismo é ilegal. Não querer casar com uma pessoa por causa da cor, nacionalidade, cultura, grana, feiúra etc. é ilegal? Todos temos preconceitos. E conceitos. Não dá pra legislar sobre nosso inconsciente.

Há político (e jornalista) que aposta na ignorância. Eu aposto na inteligência e na liberdade. Escolha seu lado. O Bolsonaro é escrotésimo há 30 anos. Descobriu hoje? Onde você passou as últimas décadas?

Liberdade é a liberdade de dizer coisas indefensáveis da maneira mais escrota possível. Liberdade é escrever no Twitter o que eu quiser, e um cara lá me chamar na semana passada de hidrante de diarreia.

Jair Bolsonaro é do PP, partido da base aliada da Dilma. Só pra lembrar. Bem, se forem expulsar o Bolsonaro do Congresso por ser um troglodita, vai esvaziar aquele lugar rapidinho.

Existem ótimas razões para não namorar a Preta Gil. O sogro maleta, por exemplo. O Bolsonaro é contra o filho namorar a Preta Gil porque é a Preta Gil, ou por que é preta?

Todo mundo é muito politicamente correto no Twitter. Parece que ninguém faz piadinha com gay, preto, gordo, magro, mulher boa, feia etc. Se liga, mané.

Mau-caratismo é um problema. Principalmente quando me acusam de fazer mau-caratismo. Por mim, não só o filho do Bolsonaro não devia casar com ninguém, como nem o próprio deveria ter se reproduzido.

Mas beleza, Bolsonaro merece porrada, qualquer que seja a razão. Se perder o mandato é um ganho pra nação.

Tem hora que é aquilo - se não dá pra prender o Al Capone por assassinato, prende por fraudar a Receita. A cadeia é a mesma.

Mas que fico espantado com a incompreensão geral do que significa liberdade de expressão, fico mesmo. Racismo de verdade é a política educacional deste país, que mantém uma muralha entre brancos e negros. E ponto final.

Agora, você sabe o nome do ministro da educação? Vai lá xingar ele, vai. Quem sabe entra nos TTs. Nego reclama da árvore no meio da floresta. Oh well, back to our regular programming.

Está revoltando com o Bolsonaro? Se liga nos cortes no orçamento federal. Adivinha quem vai ser mais prejudicado.

Claro que cortaram 50 bi do orçamento e botaram 50 bi no BNDES, para os de sempre. Racismo não é só da boca pra fora não.

O Brasil continua tendo uma baita de uma senzala. E não é se livrar o idiota do Bolsonaro que vai mudar isso. Tenho dito!

Raça não é um conceito científico. Vamos enterrar o termo. Vamos falar de preconceito cromático, que tal?

Como um cara que serviu a ditadura pode ter mandato? Essa é a pergunta. O Bolsonaro é só o mais caricatural. Sarney, Collor, e aí?

Mas o Sarney e o Collor são legais, né, a Dilma até convidou eles para jantar com o Obama e tudo. Dize-me com quem andas etc.

Mas é pra linchar o panaca, vai em frente, lincha aí. Depois volta tudo ao rame-rame de sempre.

Kiss kiss bang bang.

E ademã que eu vou em frente.

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Estranhou o artigo? Não é artigo. Estas frases foram publicadas uma por uma por mim, menos de 24 horas atrás, no Twitter, em um espaço de uns 40 minutos. Foi minha reação à reação descabida dos internautas ao besteirol entre o deputado Jair Bolsonaro e a (cantora?) Preta Gil.

preta gil Sobre Bolsonaro, Preta Gil e os limites do Twitter

Contexto: Bolsonaro, conhecido por ser um dos políticos de mais extrema direita do país, foi entrevistado  no programa CQC. Preta Gil mandou uma pergunta provocativa, ouviu uma resposta desaforada e, acho, confusa do deputado. Preta Gil interpretou como racismo de Bolsonaro e ameaçou processá-lo.

A internet explodiu em xingamentos a Bolsonaro, apareceram campanhas para cassar seu mandato e tal. É fácil antipatizar com a criatura. Não há justificativa para que ele seja um representante do povo, fora o fato dele ter sido eleito. Eu quis tocar em algumas questões básicas na história:

a) Bolsonaro realmente foi publicamente racista, ao dizer que não permitiria que seu filho casasse com uma negra porque ele é contra promiscuidade? Ou houve uma incompreensão de Bolsonaro, que foi bem aproveitada pela edição do CQC? Afinal, é perfeitamente razoável que Preta Gil não seja a nora dos seus sonhos. Não porque é preta, mas por que é Preta Gil.

b) isso é o pior que Bolsonaro já fez? Ele tem décadas de desserviços à democracia brasileira, e só agora a websfera descobriu sua trogloditice? E os caras que votam nele há décadas? E o governo federal, que conta com Bolsonaro e seu partido de ex-apaniguados da ditadura como fiéis integrantes da base aliada?

c) Aliás, não é pernicioso que a gente permita que pessoas que lutaram contra a democracia hoje sejam eleitas? Ou faz parte do jogo democrático?

d) Indo mais fundo: é positivo ou negativo para a democracia que a liberdade de expressão inclua a liberdade de pessoas como Bolsonaro, você e eu defendamos coisas que a maioria da população considera reprováveis? Afinal, já foi anátema para os brasileiros a liberdade dos escravos, o voto da mulher etc.

e) o pior racismo está em uma entrevista  de deputado, ou na política permanente de exclusão social do Brasil, que mudou só um pouquinho nos últimos anos, continua privilegiando os privilegiados e penalizando os necessitados, e na prática causa uma divisão gritante entre os brasileiros brancos e negros?

E por aí afora. Tudo mal explicado, mal desenvolvido, reagindo a comentários de outras pessoas no Twitter, e perspassado de ironia. Mas quente, quente como o momento, e nesses momentos o Twitter funciona muito bem, como um telefone sem fio e como uma reportagem de rádio, ao vivo do local incêndio. Milhares de pessoas leram o que escrevi, comentaram, questionaram, repercutiram.

O problema é que o que você escreve no Twitter se perde; e que você nunca sabe exatamente quantas pessoas leram o que você escreveu no Twitter. Existem ferramentas para resolver as duas questões. Tenho usado o Buble.me, preferido da turma aqui da Tambor, para muita coisa. Usarei mais no futuro.

Este papo todo conversa com meu post anterior, "Por que não comento os comentários do meu blog". Trata-se de questão de amplitude maior: qual é a maneira mais produtiva de usar as ferramentas da internet, e quais, e em que momento, para se comunicar: Não sei a resposta e continuo procurando, em público. Uma hora aprendo.

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