GQ ED01 CAPA ok2 759x1024 Como não aprender a ser um gentleman, lendo revistas masculinas

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Alessandra Ambrosio é bonitinha e não tem nada a dizer. Luana Piovani é bonitona e talvez tenha, mas não diz, nem a J.R. Duran.

Alessandra e Luana são as duas atrações femininas da primeira edição da GQ, uma revista para homens que é sobre homem, não sobre mulher. É pouco, se você está acostumado a capotar nas curvas perigosas da Playboy. Ou mesmo crescer um olho para as moças bem (pouco) vestidas e o molho picante da VIP e congêneres.

A GQ já tinha 17 edições internacionais. Chega bem atrasadinha ao Brasil. Tem 80 anos, e este nome desde 1958. Foi a primeira revista sobre roupa para homens. É um dos dois títulos masculinos mais tradicionais do planeta, como você pode inferir pelo nome internacional da publicação, Gentlemen´s Quarterly - como se ainda houvesse cavalheiros ou revistas trimestrais entre nós.

Bem, antes tarde que nunca, e GQ chegou bonita e generosa, 218 páginas, lombada quadrada, papel brilhante, tantas páginas de publicidade que nem vou contar. É o primeiro título 100% lançado pela nova associação entre a editora Globo e a Condé Nast, editora que publica as revistas mais chiques do mundo. Antes, a Globo tinha assumido a Vogue, título tradicional no Brasil. GQ foi desenvolvida do zero.

É extremamente bem-feita, tecnicamente, e sei o trabalho que dá. Li muita revista masculina na vida, por lazer e trabalho. Chupinhei umas soluções da Details para a Bizz. Minha favorita de todos os tempos é a Esquire, a mãe de todas, a do início dos anos 90 - Jim Harrison assinava a coluna de comida. A seção especial de final de ano, Dubious Achievements, com as maiores besteiras do ano anterior, era maravilhosa. Tenho algumas perdidas em casa.

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Até dirigi uma revista masculina cinco meses, UM - Universo Masculino, 2007. As razões são bem estranhas e não importam agora. A UM era uma revista para homens adultos, com fotos certinhas de moças idem, e mais aquele trivial variado de restaurante de negócios - carro, vinho, gravata, loção pós-barba, viagem, dica pra perder a barriga, lições de homens de sucesso, pelo menos uma boa reportagem de interesse geral etc.

Aprendi que não dá pra fazer revista elegante sem esbanjar, nem levantar revista nenhuma sem dedicação total à missão. Também aprendi que não tenho estômago para negociar autorização de fotos com subdivas e seus assessores. Não me orgulho do resultado, mas lembro de bons momentos com uma equipe muito bacana. Tive especial prazer em atualizar o projeto gráfico da UM, me "inspirando" na... GQ.

Na edição espanhola da GQ, que era na época melhor que a inglesa, a americana e a italiana, elegante sem ser fria. Serei leitor da GQ brasileira? Bem, não sou das gringas, não mais, nem de revista masculina nenhuma, não fiel.

Compro uma ou outra conforme uma chamada de capa, uma assinatura de um jornalista que admiro, ou o olharzinho petulante da moça na capa. Sigo mais editores que qualquer outra coisa. Leio mais a Playboy sob Edson Aran que sob a administração anterior. A VIP sempre folheio com prazer cortando o cabelo com o Régis, meu barbeiro, oops, cabeleireiro? Hair stylist? A seção de comes e bebes é sempre divertida.

Recebo, muito obrigado, a Trip em casa, e se não é exatamente minha cara, é mais meu número que qualquer outra, porque a menos dedicada aos prazeres de adquirir e mais aos prazeres de ser. As internacionais abandonei ou me abandonaram - o que fechou de revista masculina nos últimos anos não foi pouco.

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Curti mais partes da GQ do que as que pulei - o artigo sobre como seria O Poderoso Chefão 4 ficou delicioso - e acompanharei com interesse. A chegada da GQ e a ampliação das operações da Globo - Condé Nast por aqui são bem vindas. Jornalistas precisam de mercado, anunciantes de veículos, leitores de opções. Nos EUA, 73% dos leitores de GQ são homens, 63% do total solteiros, 65% ganham mais  de cinquenta mil dólares por ano.

É sintomático que só em 2011 o Brasil tenha reunido cacife para ter uma revista masculina como a GQ, para homens adultos, abonados e cosmopolitas - é que só agora os temos. E é estimulante que o cara à frente da empreitada seja o camarada Ricardo Franca Cruz, que conheci estagiário, virou jornalistão e comandou a Rolling Stone desde seu início há poucos meses.

Ricardo, Quinho, é um de nós, não um burocrata. Tem chance de fazer uma revista que não seja a Playboy, nem para playboys. É sua presença, e do amigo Rodrigo Salem, e de um time de respeito no expediente, que me farão voltar à GQ. Não com fidelidade, infelizmente. O problema sou eu.

Meu sonho de consumo é passar o resto da vida descalço, de bermuda e camiseta, lendo e escrevendo, namorando e bebericando, pulando onda, cercado de crianças. Não faço ideia da marca do meu shampoo, creme para barba, desodorante, ou mesmo da calça que estou usando neste exato momento. Não gosto de fazer compras e já sei o que é ser homem, para o bem e o mal.

Penso que me viro bem sem um manual de instruções. E aí me oprime ser lembrado do tanto que não sei. A GQ está repleta de dicas preciosas - como fazer um martini de pera e grapefruit e um sorbet de beterraba! As vantagens do abdominal oblíquo e do umidor de charutos!

Como dobrar seu lenço e ter dentes tão lustrosos como o de Clark Gable! Como ser elegantésimo nos cafundós do Tapajós! E por aí vai.

Ser um gentleman é trabalho demais para mim, rei da preguiça...

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