Como decidir se um livro é ficção científica ou não (estrelando Eliana Cardoso e Kurt Vonnegut)

fox ok Como decidir se um livro é ficção científica ou não (estrelando Eliana Cardoso e Kurt Vonnegut)

'SF's no good!' they bellow till we're deaf; And if it's good? 'Why then, it's not SF!'

Robert Conquest

Eliana Cardoso sempre surpreende. Voltou ao caderno de fim de semana do Valor Econômico, alternando duas colunas quinzenais, nenhuma sobre economia. Minha favorita é sobre literatura, sobre o que Eliana escreve
literariamente, e leio com atenção, mesmo quando o autor ou tema pouco me interessam.

Os textos estão aqui.

A coluna mais recente é sobre Kurt Vonnegut. Foi cult nos 60, ícone da contracultura nos 70, canône decadente nos 80.  Está fora de moda. Amo de paixão desde os 15 anos, quando li Pastelão (ou: Solitários, Nunca Mais).

Tenho as edições da Artenova, da Nova Fronteira e Círculo do Livro caindo aos pedaços em algum lugar em casa, intocadas há mais de duas décadas. Nunca li em inglês e nem lerei. Perda minha, mas já ganhei bastante com Kurt.

Sua carreira de cinco décadas começou na ficção científica e terminou na fantasia; escorregou do humor absurdista para a pregação. Foi virando cada vez mais ele e, francamente, repetitivo. Não é assim com todos nós?

O assunto de Eliana é Matadouro 5, o livro mais famoso e incômodo de Vonnegut. O tema é o bombardeio de Dresden, quando os aliados massacraram 45 mil civis à toa. Morreu mais civil nessa cidade que em Hiroshima.

É um dos piores crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial, e não foram poucos. Vonnegut, soldado americano de origem alemã, era prisioneiro de guerra na cidade. Sobreviveu por pouco.

Como os outros, foi forçado a escavar as ruínas atrás de sobreviventes e empilhar os cadáveres. Não tinha onde enterrar. As tropas alemãs incineravam com lança-chamas.

Foi a experiência definitiva de sua vida. Olha esta montanha de carne morta - você conseguiria esquecer?

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Matadouro 5, como vários outros livros de Kurt, é sobre isso e várias outras coisas. Também fala, muito bem, de viagens no tempo. Pare tudo e vá ler. Se não confia em mim, veja o que a Eliana diz em seu artigo aqui.

O artigo me cutucou a um comentário logo pelo início: "a classificação de Vonnegut seja como humorista seja como escritor de literatura de ficção cientifica, limita a compreensão de sua obra, que foi profundamente inovadora, tanto na forma como no conteúdo."

Bem, tive gargalhadas incontroláveis lendo Vonnegut, e quase sempre tinha os dois pés bem fincados na ficção cientifica. Não estava sozinho - lembro Alfred Bester e Robert Sheckley e Philip K. Dick como contemporâneos da FC que sabiam fazer rir & matutar (amanhã, não resisto, publico as inesquecíveis dicas de Kurt sobre como escrever um conto, que um dia seguirei à risca).

Mas Eliana conhece seu leitor. Sabe que em companhia culta, o termo ficção científica é o beijo da morte. Qualquer obra que mereça inclusão nesta categoria é automaticamente menor, coisa para moleques espinhentos ou tiozinhos mal-amados.

O menosprezo pelos gêneros literários vale igualmente para o horror, o policial e qualquer outro, mas a ficção científica não tem concorrentes no quesito preconceito.

Naturalmente, "dramas psicológicos sobre homens quarentões brancos de classe média intelectualizada-cosmopolita" também constituem um gênero. É fácil listar as regras e cacoetes desta produção, que é a que mais recebe prêmios literários e aplausos da crítica. Jornalistas com medo de destoar da horda e leitores entre a pretensão e a ignorância ajoelham instintivamente neste altar. Pior para eles.

É claro que existem livros excelentes em todos os gêneros, e livros que desafiam categorização. Mas Matadouro 5 não parece com ficção científica típica? O que exatamente você chama de FC típica?

Matadouro 5 foi escrito em 1969, quando a ficção científica alçava voos para muito além da space opera, do manual do astronauta mirim ou da especulação científica. Foi a era em que a FC deixou de lado as ciências exatas e mergulhou nas humanas.

Era da "new wave", de revistas como a New Worlds, editada pelo também autor Michael Moorcock; de Harlan Ellison, Ballard, Spinrad, Delany, Zelazny, LeGuin; de ficção científica feminista, mística, psicodélica, multirracial, rock´n´roll. O livro de Vonnegut flui sem fricção neste éter.

Recentemente, virou modinha em Hollywood o abominável termo "elevated genre". É uma maneira do diretor se desculpar - não é terror, viu gente, é terror elevado, muito mais que terror; não é ficção científica, é mais
inteligente, mais "artístico". Falta de fibra.

Não há vergonha em você ser o que é e fazer o que faz - contanto que faça direito. Viu o Oscar? Cisne Negro é um filme de terror, ponto (e 127 horas também, ponto e vírgula). Bravura Indômita é um faroeste, como Bonanza ou Rio Vermelho. E O Discurso do Rei é daquele gênero "ingleses finos, bem vestidos e travados e suas desventuras acridoces" - alguém já inventou um nome para isso? Me avisem.

Vamos combinar assim: não dá para decidir se um livro é ficção científica (ou não, ou algo mais digno de nota) simplesmente baseado nos seus preconceitos sobre o gênero, caro amigo.

Matadouro 5 é uma história de ficção científica, como Eu, Robô, Neuromancer ou, opa, A Metamorfose, de Franz Kafka, e O Aleph, de Jorge Luis Borges.

Eliana Cardoso não tratou a FC como gênero menor - simplesmente reconheceu que é assim que pensa o leitor comum (esta pobre criatura).

Seu texto me fez lembrar o resumo perfeito desta atitude, que encontrei primeiro em The Billion-Year Spree, mais que recomendada história da FC escrita por um de seus maiores expoentes, Brian Aldiss.

Está no poemete lá de cima, de Robert Conquest, que com Kingsley Amis formou dupla pioneira da reflexão crítica à ficção científica:

"FC não presta, gritam até nos ensurdecerem/mas este aqui é bom! Bem, então não é FC!"

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