Rio, o desenho animado, vem aí. Parece outro clássico instantâneo de nosso maior diretor de cinema, Carlos Saldanha. Quem tem filho viu os três A Era do Gelo mais de uma vez e sabe do que Carlos é capaz.

Rio é uma ode à cidade. Dá uma olhada no trailer.

Melhor propaganda às vésperas de Copa e Olimpíadas não pode haver. Não combina com o noticiário destes dias - o de sempre, mais um arrastão na Linha Vermelha, tiro para cá, vítima para lá. E o de nunca, 12 mortos por um atirador suicida, minutos atrás.

rio escola A tragédia permanente das escolas do Rio

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São Paulo e outras grandes cidades brasileiras também têm violência da pesada, claro. Mas é muito menor a discrepância entre realidade e imagem (e, principalmente, autoimagem). O Rio é tão deslumbrante quanto desesperador. Como pode um lugar estar tão perto do paraíso e do inferno ao mesmo tempo?

O Rio não tem jeito. Não é minha opinião. São os números, sempre eles, que não nos deixam em paz. O Rio de Janeiro tem a segunda pior educação do Brasil, atrás apenas do Piauí, embora o Rio seja o segundo Estado mais rico.

É o resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). As escolas públicas cariocas são fábricas de burros.

O investimento anual por estudante do ensino médio fluminense é de R$ 2.061,95, acima de todos os Estados nordestinos. A média em São Paulo é R$ 2.776,85, e a do Brasil, R$ 2.088,02.

É muito pouco em todos os casos. No do Rio, muitíssimo mal utilizado desde sempre.

Não há Estado com pior resultado, considerando o nível de investimento. Meio milhão de alunos nos níveis médio e fundamental (quase 40% do total) têm defasagem de aprendizado entre sua idade e a série que cursa. A taxa média de reprovação é de 22%.

O novo secretário de educação do Rio é um economista, mas parece que não entende muito de dinheiro. Segundo disse ao jornal Valor Econômico, “as estatísticas indicam que não há relação entre salário alto (para professor) e desempenho escolar".

Bem, os números não mentem, mas como dizia outro economista, Roberto Campos, às vezes são como os biquínis - escondem o essencial.

O Estado tinha 79 mil professores em 2006. Hoje, menos de 51 mil. Quer ser professor no Rio? O salário-base é de R$ 765,00. Quem pode, naturalmente debanda. Quem não, tem que complementar a renda com o bico que for.

Salário alto pode não ter impacto no desempenho do aluno, mas salário baixo certamente tem, secretário. E as escolas? Um levantamento do governo carioca indica que 62% dos colégios têm condições péssimas, ruins ou regulares.

Existem muitas ações necessárias para melhorar a educação no Brasil. Eu, por exemplo, acho fundamental fabricar e distribuir tablets com jogos educacionais pra molecada. Outro pensa isso e aquele defende aquilo.

Mas chega de seminários. Basta de debate estéril. O ponto de partida são professores bem treinados e remunerados em escolas decentes, limpas e bem equipadas. Sem isso, é enxugar gelo.

O problema é que para os quase 1,2 milhão de alunos das escolas públicas do Rio de Janeiro, o que interessa é hoje, e hoje a maioria deles é de pobres, ignorantes e semianalfabetos, e estão destinados a isso para o resto de suas vidas.

É farto material humano para a perpetuação da violência no Rio. Não tem Bope ou UPPs que deem conta. O destino da Cidade Maravilhosa, pelo menos o dos próximos anos, talvez décadas, está escrito. E não é o de eterno cartão postal.

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