Muita gente boa já prestou as devidas homenagens a Sidney Lumet. Nenhum obituário que li dá ideia da amplitude da vida deste jovem órfão judeu, filho de artistas, veterano da segunda guerra, ex-ator, ex-diretor de teatro, o primeiro diretor de televisão a fazer a transição para o cinema, grande influência sobre todas as gerações de criadores que vieram depois, e figura sedutora de muitos jeitos diferentes.
Recomendo a do amigo André Barcinski, aqui.
O xará, como de costume, não tem problema em ir contra a corrente. Cita como favoritos diversos filmes das últimas três décadas, produzidos depois da melhor fase de Lumet. Assino embaixo e sou capaz de fazer outra lista de favoritos, sem repetir nenhum da lista dele. O Grupo, Fail-Safe, The Anderson Tapes, e... deixa pra lá.
Lumet foi o primeiro diretor cujo nome guardei, depois de Hitchcock. Paulo Francis mistificava as rodinhas etílico-intelectuais parisienses dos anos 50, “imagine tomar umas com Sartre, Derrida, Juliette Greco” etc. Eu idealizo as panelinhas da época de... Paulo Francis, tanto as daqui, como as de Nova York.
Francis no Antonio's era prata da casa. Em Noviorque não frequentava os saraus de primeira, porque não tinha entrada. Jornalista brasileiro não era high society na época do Studio 54, não é hoje, não será nunca.
Mas estava eu lá em Piracicaba, adolescendo, e Francis escrevia sobre Manhattan como se visse todo dia o sol se pôr over drinks no Elaine's.
E de todo mundo que era personagem dessa Nova York inteligente, politizada, glamorosa, mundana, multirracial e pansexual, eu era especialmente fã de Sidney Lumet, que acaba de partir dessa para a história. Via na revista Manchete as fotos de Lumet com a mulher, Gail, negra, linda, chiquerésima, filha de Lena Horne, casal moderno, e me perguntava o que exatamente eu estava fazendo da minha vida.
Era seu fã desde menino, Assassinato no Expresso do Oriente. Sabia a história de antemão. Eu li uns 40 livros da Agatha Christie antes do colegial, você não? Mas o filme era perfeito, elenco estelar, Hercule Poirot.
Equus vi na oitava série, usando minha carteirinha com a data de nascimento falsificada - um psicodrama teatral perfeito para bagunçar a cabeça de um menino com os hormônios em erupção. O Veredicto amei aos 17 anos e ainda adoro - costumava tomar uma gema de ovo na cerveja, como Paul Newman, para me sentir adulto. É horrível, não recomendo.
E assisti e reassisti Rede de Intrigas, Um dia de Cão, Serpico, The Anderson Tapes, e o favorito do mano André Martins, Doze Homens E Uma Sentença.
Lumet se levava a sério. Tinha mão mais para pesada. A solenidade das encenações frequentemente desacelerava o ritmo de seus filmes. Praticamente só dirigiu dramas, onde não se permitia espaço para leveza ou humor. Em registro completamente outro, assinou coisas como The Wiz, Michael Jackson e Diana Ross na terra de Oz.
Não tinha medo de variar de gêneros, mesmo sendo mestre inquestionável do drama urbano, psicológico, criminal (e não policial). Lumet sempre voltava aos temas da responsabilidade, e da culpa, e da ética, e de como a justiça é impossível e a busca por ela, indispensável.
Lumet deixou um legado de inteligência e integridade. Fez o que queria fazer, até o fim, e ninguém fez melhor - quer epitáfio melhor?
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