Dilma foi à China. Precisava anunciar de lá algo grandioso, algo que gerasse repercussão imediata e positiva, e fosse compreendido por qualquer zé mané na rua. Conseguiu: o  investimento de US$ 12 bilhões numa fábrica de iPads no nosso país.

A bufunfa sairá dos cofres da Foxconn, empresa para quem a Apple terceiriza a produção de parte dos iPads. Mas não se trata apenas de baratear a geringonça-fetiche-de-consumo. O país será beneficiado de muitas maneiras, informam os jornalistas que acompanham a presidente ao outro lado do mundo.

A saber:

- o projeto da Foxconn envolve a contratação de 100 mil funcionários

- 20 mil serão engenheiros

- a Foxconn tem planos para a construção de uma "cidade inteligente" para instalar a fábrica e os funcionários da empresa

- este será o investimento estrangeiro que mais terá gerado empregos na história do país

- o iPad vai passar a custar, em vez de R$ 1.500, menos de mil reais!

- e, claro, como tudo associado à marca Apple, faz de nós instantaneamente modernos e descolados.

É?

O que Dilma Rousseff anunciou, de fato, foi o compromisso da Foxconn de investir US$ 12 bilhões no Brasil, nos próximos cinco anos, para fabricar as telas dos iPads. Isso não impulsiona a tecnologia do país em nada. Não inclui pesquisa ou transferência de tecnologia. Os componentes que importam do iPad continuarão vindo de fora.

Para que 20 mil engenheiros? Não faço ideia, assim como não imagino em que será aplicada a mão de obra de 100 mil brasileiros. Para fabricar displays? Tás brincando.

Bem, a cavalo dado não se olha os dentes, embora imagine que estejam previstas muitas contrapartidas a este investimento. Mas eu faria diferente. Se estivesse sentado na cadeira de Dilma, eu encomendaria a meus ministros (da Educação, Ciência e Tecnologia e quem mais fosse) um plano urgente para implantar tablets para uns 50% dos alunos das escolas públicas brasileiras; e em todo canto da administração federal.

Mas os tablets deverão ser integralmente fabricados no Brasil, e tão projetados aqui quanto possível, levando em conta as necessidades e oportunidades locais, fornecedores locais etc. O governo federal garante a compra de, hm, 30 milhões de tablets a R$ 300 cada. Concorrências, leilões reversos etc. A conta dá nove bilhões de reais. Mais treinamento de funcionários públicos e professores, sobe um pouco.

Aposto que ia ter fila de fabricante querendo produzir no Brasil não só tela, mas chip, software e o escambau. Tanto gringos como brasileiros. Com transferência de tecnologia e tudo. Aposto não, sei. Sabe como sei? Porque nos doze meses desde que foi lançado o iPad, ele vendeu em todas as suas versões 15 milhões de unidades.

Se o governo federal se comprometer a comprar o dobro disso, faz uma revolução no mercado global de tablets. E também na administração pública brasileira. E na educação também! Três coelhos numa estilingada, não, quatro, porque este movimento jogaria o preço dos tablets para o consumidor brasileiro, pessoa física e empresas.

Isso é o que eu chamo de um plano estratégico para o país. Deve ser possível fazer melhor, porque esse fiz em quinze minutos. O que fizeram lá na China tem outro nome: relações públicas.

dilma china Por que uma fábrica de iPads no Brasil não é um negócio da China

Dilma com o presidente da China, Hu Jintao - Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

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